29 maio, 2007

Vozes da estrumeira

Recentemente foi insultado pela primeira vez na blogocoisa. Aparentemente sou um imbecil, fruto da estrumeira que é Portugal. O que levou alguém a colocar-me no meu devido lugar, foram os meus comentários a um post sobre a recente cessação de actividades da Venezuelana RCTV.

Por todo o lado, mesmo naquilo que muito consideram esquerda insuspeita, surgem vozes preocupadas com o controlo da informação pelo regime, com o amordaçar da democracia, etc etc.

Desde já digo que nunca me senti muito confortável com o estilo de Chavez. Desde o princípio que fiquei dividido entre o politico messiânico e o demagogo populista, nenhum dos quais me parecia um bom ponto de partida para uma mudança que todas as pessoas de bem querem democrática.

Mas aqui há uns tempos vi um documentário, disponivel no Google video para quem quiser, feito por uma equipa Irlandesa. Era para ser um documentário que procurava precisamente dar uma ideia mais precisa daquela personalidade tão polarizante. Mas a meio das filmagens aconteceu uma coisa: uma tentativa de golpe militar. E de repente aquele documentário tornou-se numa coisa que poucos alguma vez terão visto. Um golpe de estado visto de dentro. Do lado dos sitiados.

Depois de visto tudo, ficaram para mim duas ideias claras: o inequivoco apoio popular de Chavez. Quando se tem 70% do povo do seu lado, tudo o que se possa dizer sobre a sua legitimidade é retórica.

A outra ideia que ficou clara é que as televisões privadas e esta que agora cessa em particular, nunca esconderam o ser desagrado por chavez, incitando explicitamente o golpe, e durante o seu decorrer, filtrando e distorcendo cuidadosamente a informação, dando-lhe completa cobertura e apoio. Que aconteceria cá se a SIC resolvesse fazer guerra aberta a Sócrates e apoiasse uma sublevação em armas?

Desde que Chavez foi eleito pela primeira vez apenas uma televisão foi encerrada pela força. A televisão pública, durante os dois dias do golpe de estado.

Depois do golpe Chavez não prendeu nenhum dos golpistas. Não perseguiu nenhuma das televisões. Chegado ao termo da licença de uma, entendeu o governo venezuelano que não se justificava a sua renovação. Dentro da lei e com toda a legitimidade.

Continuo de pé atrás com a Venezuela. O caminho que escolheram não é fácil. Mas escolheram. E, enquanto essa escolha for legítima, e enquanto acreditarmos na democracia, é apenas ser coerente reconhecer aos venezuelanos o direito de traçar o seu próprio caminho. E não deixar que outros os "salvem de si mesmos". Como aconteceu no Chile, com Pinochet.

8 comentários:

Once In a While disse...

Há quem tenha dito (procurei sem encontrar e penso que tenha sido Bourget mas sem garantias) que o sufrágio universal é em si mesmo uma tirania: a força dos números não alia nem a audácia nem o talento.

Mas .. democrata que sou, se escolho, assumo.
Agora uma coisa penso em relação a tudo isto e ao que li lá pelos cortes: as hipóteses de escolha são igualmente arbitrárias? E escolhe-se o quê entre o quê e o demais? Há informação suficiente para se Escolher verdadeiramente? talvez sim .. talvez não.
E claro, este dava igualmente para "mangas compridas" :)

L. Rodrigues disse...

Pois... O facto é que é difícil nesta história perceber onde está a verdade tal a polaridade das opiniões. O que vi sobre o assunto leva-me desde logo a desconfiar dos media normais.

O presidente substituto durante o golpe, dava entrevistas na CNN a dizer que estava tudo sob controlo, quando o palácio já estava nas mãos d o governo de Chavez..

Só quando a televisão pública foi reactivada o povo pode perceber mesmo o que se passava, porque nenhuma das privadas, e portanto nenhuma das fontes internacionais, dava noticias do contra-golpe.

Once In a While disse...

o que nos leva de volta ao controle ou falta dele no que respeita a informação .. sem dúvida o quinto (?) poder ..

L. Rodrigues disse...

Ou seja, ainda não encontrei um observador independente onde possa aprender de facto o que se passa ali.

Once In a While disse...

seria sem qualquer dúvida um exercício interessante, esclarecedor e provavelmente algo surpreendente também.

Mike disse...

Caro Luís, devo confessar que fiquei dividido. Pois se é certo que a legitimidade é um facto e algo inquestionável a ser respeitado, também é certo que a História já nos deu exemplos de respeitáveis "legitimidades" que deram no que deram. Não sou um profundo conhecedor da História mas, e com as devidas e assinaláveis diferenças, o Sr. Adolf também não gozou dessa dita legitimidade? Claro que não foi submetido a sufrágio, mas essa é outra questão que dava pano para mangas. Para ser mais simples: o Luís Filipe Vieira foi a votos e tem toda a legitimidade nos destinos do grande Benfica. Mas será que é bom para o clube? Gostei do artigo. Abraço.

L. Rodrigues disse...

Pois Mike, nas chavez não fez a noite das facas longas... já leva alguma vantagem....

Mike disse...

Os tempos eram diferentes, mas sim, tens razão.