23 julho, 2007

Psicologia ontem

O artigo abaixo levanta o véu sobre o que a psicologia moderna, pelo menos na sua vertente evolucionista, considera motivos básicos da nossa vivência, mas em que temos dificuldade em nos revermos. Poligamia, preferencias sexuais, estratégias reprodutoras... etc.

Para já, percebemos que tudo tem mais ou menos que ver com sexo. Quase parece um regresso ao mais elementar Freud. Mas neste ponto há que ter uma coisa em consideração. A psicologia evolucionista procura precisamente estabelecer quais os traços da nossa natureza que são resultado de adaptação evolutiva. Que resultaram da selecção natural, não esquecendo que 99% da história humana ocorreu em sociedades primitivas de caçadores recolectores.

O decisor último da permanência de uma característica é a sua contribuição para o sucesso reprodutivo de um individuo, colocando a coisa de forma simplificada. Se ajuda a ter mais filhos, tende a ficar. Se estorva, tende a desaparecer. Por isso, muito do que a psicologia evolucionista tem para afirmar, tem que ver com sexo. Não apenas, mas muito.

Quando confrontados com estes factos tendemos a ficar incomodados. Quanto mais não seja por uma forma de determinismo que em si nos repugna, e à nossa noção de livre arbitrio, e também porque não nos revemos muitas vezes na natureza "humana" que é retratada. Afinal, dizem que os homens preferem as louras, mas eu prefiro morenas. Como é que é?

Um facto que por vezes é negligenciado, e aquele artigo é um exemplo disso, é a explicação de que estes dados se aplicam a populações mas não a individuos. Podemos dizer que os portugueses preferem as louras se 99% o fizerem. Mas não podemos dizer que "este português prefere louras" porque ele pode sempre pertencer aos 0,7% que preferem morenas (os outros 0,3 deixei para as ruivas, mas não se ofendam que posso inventar outras estatisticas de que gostem mais) . Isto invalida descriminações individuais com base em características do grupo. Por exemplo, é comum dizer-se que as mulheres são menos dadas à Matemática ou à Fisica Quantica, mas não faltam as excepções. Do mesmo modo há homens que conseguem dar atenção a mais que uma coisa ao mesmo tempo. (Mas sempre os achei enfeminados...)

Além de todas estas considerações estatisticas, há que ter em conta que a cultura conta. Se há coisa que já mostrou que pode ser mais poderosa que os genes, são os memes, as ideias enquanto agentes autoreplicadores.

No artigo há uma explicação para a facilidade em encontrar jovens suicidas entre muçulmanos. De acordo com ela, são os que perderam o bilhete na lotaria da reprodução, nesta terra, e tentam comprar um novo para a vida eterna. Se os genes fossem tudo, isto não pegava.

Ainda sobre este assunto li, a propósito das ultimas tentativas falhadas em Inglaterra, alguns comentários do tipo "Estes individuos eram médicos, bem na vida, não tinham nenhuma razão para fazer uma coisa destas". Se a tese dos jovens perdedores fosse a única que conta, esses comentários talvez tivessem razão de ser. Mas o que eles também traduzem é o entranhado individualismo de quem os faz.

Para estas pessoas parece plausível, mesmo que não a tenham presente, a tese defendida no artigo. É o que está implicito nas suas palavras.
Já não lhes ocorre que alguém que tenha bastante a perder, ainda assim o faça por uma causa maior, solidário para com os seus.

10 comentários:

Once In a While disse...

“Eu sou da cor daqueles que são perseguidos” .. Alphonse de Lamartine
E a minha individualidade onde fica? as minhas ânsias, os meus desejos, os meus propósitos e objectivos e aquilo que faço para os concretizar?

(pode até não ter nada a ver "Professor" ;) .. mas foi o que me ocorreu ao lê-lo .. permita-me salientar hoje um sentido de humor que lhe leio bem a propósito.. mais uma vez, gostei muito)

L. Rodrigues disse...

Não tema pela sua individualidade, minha cara. Ela é feita da combinação de variáveis que lhe foi transmitida pelos seus progenitores, e da sua (das variáveis) interacção com a sua (de si) história pessoal. Não podia ser mais única.

L. Rodrigues disse...

Aliás, deixe-me dar-lhe uma resposta mais poética
Não é por a música ser feita com as mesmas 12 notas que as sinfonias são todas iguais.

Once In a While disse...

como me diz alguém na plena posse das suas faculdades (risos) "eu não tenho medo de nada .. nem da chuva" .. e eu (moizinha) tenho uma verdadeira aversão pela globalidade de géneros, feitios, posturas e reacções baseados em estudos de percentagens .. agora que pensei melhor no comentário que deixei, acho que é isso mesmo .. :)

boa veia poética essa .. ;)

Mike disse...

Alimentava eu a esperança, a bem dizer, não sei com que fundamentos, que depois da tua colherada, eu iria dar as minhas garfadas. Desculpem-me a expressão e, meu caro l. rodrigues, sente-te livre para censurares o comentário, mas bolas, com uma colherada dessas e depois de alguém já ter dado as garfadas que deu, sinto-me como numa boda (como convidado, claro), com as mesas cobertas de fartos e deliciosos manjares e eu ali, repentinamente sem apetite e com mais vontade de me deliciar apenas olhando-os. Neste caso leia-se ler-vos. Em jeito de resumo: gostei muito da tua sinfonia. Ao contrário de ti (e da once), em alguns aspectos estou convertido à globalização, prefiro-as a elas ;) (loiras ou morenas), com um fétiche especial pelas ruivas (vá-se lá saber porquê... na volta também é global). Ah, sim, quase me esquecia, entre genes e memes, esses homens que conseguem dar atenção a mais que uma coisa ao mesmo tempo, são enfeminados sim. ;)

L. Rodrigues disse...

O meu exemplo era apenas um exemplo. Acho que há mulheres belas de todas as cores e tamanhos.
E às vezes consigo dar a impressão de estar a dar atenção a mais de uma coisa ao mesmo tempo, mas não é verdade. É apenas um truque em que mudo de foco muito rapidamente.
Acho que poderia usar a tecnologia Bitstream para exemplificar o processo, mas é melhor não o fazer, se não ainda me obrigam a tentar explicá-la.

Once In a While disse...

entre TCP's e SDH 's caro L. rodrigues .. venha o outro dos detalhes e escolha .. (rindo)

Mike disse...

Pela parte que me toca, sou sincero: dispenso uma possível exemplificação do processo através da tecnologia Bitstream, até porque tenho duas certezas (terei?): que a tua explicação vai ser exemplar e que eu não a vou entender. O que fará de mim um quê? Raios! E para ajudar à festa ainda chega alguém, assim, de mansinho, com uma inocência preversa a falar de TCP's e SDH's... E eu que só conheço os TPC's e nem sempre os faço. Raios, e mais raios!

A disse...

Hoje tive de falar! Não podia ficar calada, simplesmente não podia... Ontem á noite ainda li o teu link. Achei básico, muito superficial, ainda assim util e até interessante. Intuia aquela dos muçulmanos, mas nunca a tinha visto assim escrita. Tudo o resto já sabia de forma cientifica e evidentemente que o intuí ao longo dos anos. O que me leva a vir falar? A recomendação de um brilhante livro, sei que gostas deles como eu: George Penrose "O pequeno, o grande e a mente humana". E aí se percebem as diferenças entre o global e o individual.
É que sem individual simplesmente não HÁ global nenhum. E curiosamente o inverso é verdade também.
Felizmente que hoje comprovo a tua sabedoria e bom senso face ao link. Mas espero que gostes da sugestão.

L. Rodrigues disse...

Bem aparecida :) e muito obrigado pela sugestão.