20 janeiro, 2006

Humano, que humano?

Este post provavelmente deveria ter antecedido o anterior, numa estrutura de desenvolvimento temático, mas como não é esse o critério, fica perfeitamente aqui.

Quando me interrogava sobre o que escrever a seguir, dei-me conta - lá está - de que há uma questão geral que se coloca com especial ênfase neste principio de século. O post anterior aponta para essa questão, apenas por um ângulo particular. Mas os desafios vêm de todas as direcções.

A questão é velha como a humanidade.

Afinal, o que é ser Humano?

Não sou só eu que me dou conta de coisas.
Alguns especialistas económicos, por exemplo, deram-se conta de que a actual teoria dominante tem por base uma concepção de humanidade restrita à experiencia ocidental dos ultimos 200 anos. O sucesso do ocidente deu a ilusão de que o nosso modelo geral de desenvolvimento era o melhor, se não o único.
E incrustado nele está a ideia o Homem é um ser que apenas precisa de satisfação material, e que o traço que melhor o define e é o exclusivo e intocável motor de progresso, é a cobiça. Assim de repente diria que é melhor pensar mais no assunto.

Os psicólogos dão conta de coisas como as que descrevi no primeiro post. Por outro lado Educação vs Genética (Nurture vs Nature) para nos definir é uma dialética que começa a ser ultrapassada. Cada vez mais se apresentam como interdependentes.

Os neurologistas descobriram recentemente indícios de que nós também somos um pouco os outros, por via de umas estruturas neuronais cuja função aparente é colocar-nos na pele dos outros. A origem de coisas como a empatia e a noção básica mas imensamente poderosa de que existe uma mente dentro dos corpos dos outros seres humanos. OU pelo menos da maioria.

No campo da cibernética e na nanotecnologia explora-se a transformação do corpo humano. A ideia de ficção cientifica de seres biónicos, meio orgânicos meio máquina, parece um filme do van Damme. Mas se nos dermos conta de que, por exemplo, já foi possível curar diabetes tipo 1 em ratos de laboratório com recurso a nanomáquinas, seremos tão rápidos a rejeitar estes desenvolvimentos como desumanizantes?

Destas questões todas, e outras poderia acrescentar, a mais importante e urgente parece-me a primeira. Porque põe em causa a nossa sobrevivência enquanto espécie. Mas não se resolve a primeira sem recurso à segunda...

A economia e política presumivelmente têm como objecto promover a procura da felicidade dos individuos. Ora se isso é assim, uma economia e política que não procurem maximizar os factores de satisfação individual são falhanços à partida.

Se a psicologia e sociologia nos dizem que as pessoas são tanto mais felizes quanto mais integradas em núcleos familiares estáveis, em relações amorosas e sociais ricas, quando têm filhos, amigos, uma comunidade e que o principal factor de infelicidade é a desigualdade, as assimetrias de posses e estilos de vida... já estamos a ver que há muito por fazer.

6 comentários:

Zé Pedro do Amaral disse...

Eppur si muove

Num caso de citações mistas, uso o comentário de Galileu como uma forma de descrever a evolução da nossa espécie. A nossa evolução é, a muitos níveis, independente da compreensão e manipulação que fazemos da nossa biologia. Quaisquer manipulações das características individuais durante a ontogénese dos individuos não influenciarão de uma forma positiva (isto é, não «melhorarão») a espécie. Quanto muito terão um efeito neutro ou inclusivamente «piorarão» a espécie.

As espécies de organismos subsistem por selecção de subconjuntos de ADN. Estes subconjuntos de ADN são os individuos; os individuos mais aptos produzirão mais descendentes. As características ambientais que permitem a certos subconjuntos de ADN serem mais aptos do que outros variam com o tempo, com os locais e com as constituições dos outros subconjuntos de ADN da mesma e de outras espécies.

As únicas tentativas humanas para responder de facto a esta questão, atacando pela base o «problema», recebem nomes feios. De um modo mais intuitivo e antigo temos o racismo e de um modo mais educado e organizado o eugenismo.

Portanto, independentemente do que as várias áreas da ciência ou da para-ciência dizem que são requisitos para a Felicidade, a espécie humana (e todas as outras) vai evoluindo biologicamente através de quem se move, de quem se reproduz. Mais ainda, de quem é capaz de adicionar a essa reprodução mais-valias na formação dos seus rebentos de ADN e na manutenção do seu parceiro reprodutor.

L. Rodrigues disse...

Biologicamente certamente. Mas concordarás que nos ultimos 100 000 anos houve pouca pressão ambiental para evoluir biologicamente, mas durante esse tempo uma infinidade de estruturas, combinações e estratégias sociais. O meu texto (a parte final) tem mais que ver com a estratégia que presentemente domina e que é defendida (entre outras coisas) em nome de uma visão do que é ser humano.
A questão do "racismo" e do "eugenismo", que por certo parecem também reemergir no seio da comunidade cientifica (medicamentos desenvolvidos especificamente para certos grupos raciais, por exemplo), é irrelevante quanto a mim para fazer politica ou sociologia porque incide sobre aspectos superficiais. As emoções são, tanto quanto é possivel saber hoje, universais.
Atalhando caminho: um espermatozoide não é de esquerda nem de direita. Quando muito será do esquerdo ou do direito.

Zé Pedro do Amaral disse...

Eu estou certo que há sempre muita pressão para evoluir biologicamente. Aliás, aquilo a que chamas evolução social é um afloramento da evolução biológica.

As questões de raça ou ultimamente as questões de diferenças entre grupos de organismos não são superficiais! Poderias pressupor especiação (a formação de espécies novas) como casos de racismo exacerbado que eventualmente levarão a incompatibilidade genética.

Como dizes jocosamente, poderão não haver espermatozóides de direita ou de esquerda, mas os espermatozóides contém metade das muitas características que constituirão o organismo que talvez venham a formar. Entre essas características, uma boa parte da sua personalidade e eventualmente de suas escolhas políticas. Não no maniqueísmo que apresentas, mas no desenvolvimento de sua personalidade, do padrão dos seus humores por assim dizer.

L. Rodrigues disse...

O maniqueismo era meramente alegorico. Mantenho no entanto que, tanto quanto se sabe, as pessoas são muito mais iguais do que diferentes. Coloridas de muitos tons locais, a que se chama cultura, estão as mesmas emoções e motivações básicas, cujo desenvolvimento não escapou à logica darwinista.

A perpectiva de especiação a partir da nossa espécie parece-me remota no tempo, tirando a eventualidade de algum acidente ou manipulção maldosa que provoquem isolamento reprodutivo de populações inteiras.
A tendência tem sido, se alguma, de reunir grupos humanos espalhados pelo mundo, coisa para que nós portugueses demos um significativo contributo.

João Villalobos disse...

A conversa estava interessante mas penso que um novo post seria bem vindo :)
O meu contributo ao tema acima é: «E o óvulo, hem, e o óvulo?!»

L. Rodrigues disse...

O óvulo também.