23 outubro, 2007

Natureza humana & Northern Rock

Este excelente artigo do sempre excelente George Monbiot vai directinho a uma série de questões que me assaltam com regularidade. Logo que tenha tempo acrescentarei aqui mais umas colheradas, suscitadas mais pelos comentários que se podem ler depois do que pelo artigo em si.

Mais umas colheradas, então:

No artigo George Monbiot fala do responsável do Northern Rock, uma entidade bancária que teve que receber 16biliões de libras do governo para evitar um colapso que poderia arrastar todo o sistema bancário para o fundo.

Aparentemente, o dito responsável, com formação em zoologia foi durante boa parte dos anos 90 um colunista que defendia com eloquência a bondade de libertar os instintos humanos de egoísmo e auto-interesse, enquanto geradores de cooperação e altruismo. Uma versão genética da Mão Invisível. Para tal (surpresa!) o Governo deveria sair de cena e deixar cada um aos seus desígnios.

No mundo real esta filosofia deu um banco que perseguiu imprudentemente os seus “objectivos egoístas”, e acabou por chegar a uma situação insustentável. E lá veio o dinheiro dos contribuintes salvar o dia.

Dos comentários que li, dois despertaram o meu interesse. Um o de um provável libertário que diz que é o estado “socialista” que acaba por subtrair o dinheiro ao contribuinte já que o banco devia arcar com a responsabilidade das suas decisões, e se tinha que cair, caía.

Para estas pessoas, é indiferente o destino de todos os que fizeram os seus créditos, colocaram as suas poupanças, enfim, confiaram no banco.

São aqueles que acham (mesmo que não o admitam) que a fome faz sentido economicamente. Chama-se “destruição de procura”. Afinal, se as pessoas não tinham dinheiro para comprar comida, não se deviam ter endividado na mercearia.

O outro comentário diz “Não... as pessoas não são egoístas!” e dá como exemplo o hipotético herói que no Iraque se atira para cima de uma granada para salvar o pelotão. Este argumento não contraria Monbiot.

No artigo Monbiot afirma que sim, há um certo determinismo biológico que nos condiciona, e somos inerentemente egoístas. Esse egoísmo era, nos clãs pré-históricos que constituem 99% da história da humanidade, controlado pelos mecanismos familiares e sociais. Afinal, não vamos ser uns pulhas para pessoas que vemos todos os dias. Num clã não duraríamos muito tempo.

O soldado que salva a vida dos camaradas é motivado por valores internos ao grupo. O mesmo soldado faria o mesmo sacrifício para salvar meia dúzia de desconhecidos no outro lado do mundo?

Nas nossas sociedades, em que temos relações de toda a espécie com pessoas que não vemos, nomeadamente nossos clientes, ou empregados, podemos incorrer em comportamentos anti-sociais com reduzido risco de retaliação ou correcção. É por isso que há leis e governos, e é por isso que ambos são tanto mais importantes quanto mais distantes estivermos do clã pré-histórico que nos viu evoluir.

10 comentários:

Mike disse...

… ”The survival strategies that once ensured cooperation among equals now ensure subservience to those who have broken the social contract”… muito interessante, o artigo, l. Venham de lá as tuas colheradas que eu já estou de pé atrás, adivinhando muito pano para poucas mangas... é que o homem é um activista, daqueles a sério... ;)

Mike disse...

Oh l., é um caso bicudo... eu contribuinte (e libertário estarás já tu a pensar, mas estás enganado), diria mais impostos meus por causa de uns incautos? ou melhor, como dizem no Brasil que o Monbiot conhece bem (!), ema, ema, ema, cada um com seus pobrema. Mas rapidamente pensaria, hoje são eles, amanhã poderei ser eu, por isso, há que unir costados. E as leis e os governos estão lá para isso.

L. Rodrigues disse...

Ainda bem que pensas, Mike :).

João Pereira da Silva disse...

A utopia libertária continua sem realização à vista...
O egoísta que há em cada um de nós obriga necessariamente a que todos zelem por cada um. Até pelos mais egoístas.

Mike disse...

Mas penso algo contrariado, meu caro l., que ao dito responsável tirava-lhe a licença (se é que isso se poderia fazer, mas se não podia, devia), garantindo que Banco nenhum tivesse até ao fim dos dias dele. O lugar dos aventureiros é nos filmes de cowboys ou na selva.

Once In a While disse...

comentário tardio eu sei .. mas o tempo !
Gostei desta posta caro l.rodrigues .. e ao #inerentemente egoistas..# ocorreu-me algo lido há uns anos que nem sei se reproduzo convenientemente mas acredito ser algo do género:

O homem não é um ser inerentemente egoísta ou altruísta; tem o potencial para a destruição, mas também carrega o instrumental para a grandeza.

L. Rodrigues disse...

sempre a tempo, Once.

Tem razão, o tom do artigo poderia implicar que somos predominantemente egoistas.
Somos inerentemente tudo o que podemos ser. Uma "sociedade" que glorifica o individualismo faz-nos perder o equilíbrio.

Once In a While disse...

de facto l. rodrigues .. e eu que sou a menina da memória (risos) ao lê-lo lembrei-me imediatamente de outra citação esta de David Mourão Ferreira:

"temos cinco sentidos.
São dois pares de asas e meio. Como quereis o equilibrio?"

:)

L. Rodrigues disse...

Equilibrio:
Dois pares de asas e uma cauda...

a poesia dá para tudo.

PMR disse...

Bremner Bird and Fortune - Meeting the Adviser
Alem da poesia o humor tambem ajuda.
Vejam este no you tube
A capacidade de rir de si proprio tem o tal efeito da "catarse". Mas rir de verdades, como acontecia no yes minister