08 novembro, 2006

A liberdade

Aqui há uns tempos, num blogue muito frequentado, foi-me colocada a seguinte questão: "Mas afinal é a favor de uma Sociedade com mais socialismo e menos liberdade?"

Uma das maiores falácias dos chamados liberais, ou neo-liberais, conforme quem os chame, é a forma como se apropriam da Liberdade. A Liberdade é para eles um valor absoluto e como tal é inviolável. O que eles não dizem sempre é que quando falam de liberdade apenas estão a pensar em liberdade individual.

Qualquer pessoa sabe que um individuo infinitamente livre ou é Deus ou é um sociopata. Isso desde logo inviabiliza a Liberdade Individual como valor absoluto.

Assim, quando pensei na resposta a dar àquela questão, a primeira reacção foi rejeitar a Liberdade como valor maior, trocando-o por outro como por exemplo a Felicidade ou a Dignidade (que não existem sem doses mínimas de liberdade, mas que se não forem metas, de que serve a mesma? A propósito, li naquele blogue que o liberalismo defendia a liberdade dos mercados mesmo que isso significasse a miséria para todos...vá-se lá perceber o sentido disto).

Mas não quis abdicar da Liberdade. As pessoas de bem não devem abdicar dela. Pelo contrário, acredito que valorizo mais a Liberdade que os liberais. Tanto que acredito que numa sociedade quanto mais Liberdade houver, melhor. Acredito que uma sociedade é melhor quando a liberdade somada dos seus cidadãos é maior.

E é por isso que acredito na redistribuição de riqueza. Se a um multimilionário tirarmos um milhão para distribuir por uns milhares de destituídos, a liberdade do primeiro fica virtualmente intacta, enquanto a liberdade dos que nada tinham foi exponencialmente multiplicada. No total aumentámos a liberdade de todos.

Além disso é bem provável que o multimilionário fique mais feliz.

10 comentários:

José, o Alfredo disse...

O obstáculo mais tramado de transpor é a lei das probabilidades. Outro obstáculo, não menos tramado, é a lei do maior ou menor esforço. A probabilidade de um multimilionário (ou meia dúzia deles) se apropriar da riqueza que resulta da multiplicação de infinitas pobrezas (os tais milhares de destituídos, que habitualmente até fazem o favor de serem milhões) é altíssima e o esforço que possa requerer habitualmente resolve-se bem com o que não falta à partida a esse tipo ou a essa meia dúzia de tipos, que é dinheiro e/ou poder. Já a conjugação de acções de milhares de destituídos no sentido de se apoderarem nem que seja de uma parte da riqueza de um tipo rico e poderoso, ou meia dúzia deles, exige um esforço danado, a probabilidade de dar certo é mínima e, no caso de dar, a probabilidade de impedir a ascensão de um novo tipo ao lugar do anterior é (historicamente) zero.

L. Rodrigues disse...

Ora, José,
Não é preciso desafiar tantas leis.
Basta respeitar outras. Nomeadamente as que visam cobrar impostos a quem lhe anda a fugir.
É apenas reconhecer que na Suécia se vive melhor que na Inglaterra.

marta r disse...

Não consegui abrir o link... e fiquei sem saber como é que um multimilionário pode ficar feliz por lhe tirarem um milhão...
Vou tentar abrir noutro PC. Estou curiosa.

L. Rodrigues disse...

Cara Marta r,
Se não conseguir por aí, tente por aqui:
www.ted.com/tedtalks e vá andando para baixo até Barry Schwartz.
Dá para fazer download.
Aproveite e explore o resto, é um manancial.

cc disse...

Passei pela 1ª vez por aqui e acabei no Barry Schwartz. Fantástico!

L. Rodrigues disse...

Bem vinda, CC
Volte sempre.

cc disse...

Obrigado :)
Volatrei

cc disse...

Volatrei = Voltarei (dislexia de fim de dia diabólico)

marta r disse...

Ups, consegui finalmente ouvir o Barry. Tem razão, L.Rodrigues. Já percebi o seu ponto de vista. Faz sentido.

L. Rodrigues disse...

É isso, Marta...
Temos andado demasiado presos a uma versão da natureza humana, no mínimo parcial, certamente errada. E só com base no entendimento de como somos de facto, é possível desenhar um sistema económico e social que seja bem sucedido, por ser Humano.