10 janeiro, 2007

A Fé na Crença. Apêndice A

Um colunista regular num jornal financeiro de grande divulgação mundial e de páginas cor-de-rosa salmão, publicou uma coluna recentemente com o seguinte título:

O lobby verde deve ser tratado como uma religião.

É uma estratégia perversa, idêntica à aplicada pelos criacionistas: quando os factos não nos favorecem, removem-se os factos da discussão. Faz-se descer a ciência para o nível da religião, e em vez de exigir que uma afirmação de índole cientifica - a hipótese “A vida tem origem numa entidade inteligente superior” – seja escrutinada pelos critérios da ciência, reduz-se o enquadramento a uma matéria de fé, que é uma coisa inquestionável e pessoal.

No caso dos criacionistas, fecham os olhos a todas as evidências de evolução para se focarem nas eventuais lacunas que possam existir no conhecimento.
No debate sobre o ambiente e, caso em questão, as mudanças climáticas, foca-se a discussão não nas evidências apresentadas por milhares de especialistas, mas na incerteza das soluções e dos desenvolvimentos.

Deixa-se de discutir o que se sabe, para discutir o que não se sabe. E nessa altura, a minha fé, ou fezada, parece tão boa como a tua. É por coisas como esta que um mundo onde acreditar sem razão é uma virtude, é um mundo pior.

Mas o pior é que enquanto esta discussão vai nesta forma travestida para os jornais lidos pelos decisores de todo o mundo, as tentativas de esclarecer e alertar a opinião pública vão sendo torpedeadas a torto e a direito. A última de que me dei conta é particularmente educativa:

Uma activista americana, co-produtora do documentário “Uma Verdade Inconveniente” tentou recentemente doar 50 000 cópias em DVD à Associação americana de Professores de Ciências. A oferta foi recusada com o argumento não totalmente descartável de que “outros grupos de interesse pudessem tentar usar a associação distribuir material promocional, de que a associação não podia dar suporte político ao filme, e que pouco benefício haveria para os associados. Além disso, aceitar o filme representaria um risco desnecessário para as campanhas de angariação de fundos da Associação, especialmente junto de alguns apoiantes.” Hmmm….

Vai-se a ver, não só a dita associação recusa a divulgação de um documentário de méritos científicos reconhecidos como ao que parece, divulga “conteúdos educativos” produzidos pelo American Petroleum Institute.

Está tudo aqui.

Comecem a comprar terra na Gronelândia, digo eu. Mas não muito junto à costa.


PS. O Financial Times teve o mérito de publicar algumas boas respostas ao artigo com que comecei este post:

"Orthodox economics, (...), with its presumption of an infinite natural resource base to fuel endless gross domestic product growth, its belief in man as a perfectly informed rational agent and of markets bustling with the efficiency of limitless small companies facing no barriers to entry in any sector - this is a belief system that really does require a leap of faith."

10 comentários:

Mike disse...

Sabes, Luís, o ser humano em geral procura desesperadamente um regresso às origens, demonstrando, cada vez mais, desprezo pela ciência. E isso leva-o inevitavelmente para a religião, ou mesmo para a filosofia. Sendo a filosofia a "mãe de todas as ciências", é até coerente este regresso às origens na procura de respostas para questões do quotidiano. Mas dou-te razão. Um mundo onde se considera uma virtude acreditar sem razão é, definitivamente, um mundo pior.

L. Rodrigues disse...

Acho que esse movimento de que falas, não tem tanto que ver com a ciência, embora ela apanhe por tabela.
Nas sociedade ocidentais em determinada altura estabeleceu-se a convicção de que mais riqueza material era o mecanismo fundamental na "busca da felicidade" que a constituição Americana consagrou.
Essa promessa não se cumpriu, isso é claro há muito tempo, e tenho praí para baixo uns posts sobre isso.
O regresso a uma certa "espiritualidade", na ressaca de uma bebedeira de consumo, levará alguns a colocar em causa tudo o que associam ao progresso material, e nisso a ciência leva por tabela.

Por outro lado, as áreas da ciência que podem eventualmente dar algumas respostas que são procuradas nessa busca de espiritualidade, ainda estão a dar os primeiros passos depois de uma longa travessia do deserto.

De qualquer modo posso já adiantar que as respostas que interessam já foram respondidas, sob multiplas formas em múltiplas religiões e filosofias. O que a ciência pode fazer é explicar porque essas respostas são universais, e a sua raíz natural, e não sobrenatural.

E cabe a nós, com a ajuda de um filósofo ou outro, perceber que não é por terem raízes naturais que são menores.

(estes comentários longos pediam outro tipo de suporte...)

Mike disse...

Pois é... É exactamente porque as áreas da ciências que poderiam dar resposta a algumas destas questões estarem numa fase embrionária, ou a dar os primeiros passos, que as pessoas procuram respostas na religião ou na filosofia. Acreditando que existem realmente áreas científicas que estão a dar esses primeiros passos... Não vá haver um elevado optimismo sobre essas áreas...

L. Rodrigues disse...

Não me interpretes mal, como disse já noutro comentário, não pretendo que a ciência tenha a capacidade de abarcar toda a experiência humana. A filosofia não é ciência em sentido estrito.

E é da filosofia que podemos retirar princípios éticos e morais, cuja prescrição está fora da esfera da ciência.

Mas há uma cada vez maior compreensão da natureza humana. A psicologia e a neurologia associadas à biologia dão-nos uma visão cada vez precisa de nós mesmos.

Explicam inclusive porque somos animais potencialmente religiosos.
E, de novo, sermos religiosos não implica a existência dos nossos objectos de devoção.

fcaldas disse...

Como também não implica a sua inexistência. A falta de evidência científica permite a falta de fé na crença; não permite afirmar peremptoriamente que não existe Deus. A bem dizer, até agora a única coisa concreta que a ciência pôde dizer sobre o assunto é que Ele não está sujeito ao seu método de investigação nem se enquadra nos seus modelos.

Em relação ao teu post, é verdade que hoje o conhecimento parece querer disputar o lugar à religião; temos uma nova crença, a do saber comprovado, tudo o mais é superstição, logo descartável. É a tal "visão superior" em que tu tens tanta fé (está smp presente, mas salta à vista em frases como "... Faz-se descer a ciência para o nível da religião..."). Infelizmente o teu positivismo também não dá para tudo.

De qualquer forma, não me parece que a religião seja a culpada de não se discutir o ambiente e as alterações climáticas. Tampouco terá sido por via da religião que a tal associação recusou a oferta dos DVDs. Money makes the world go around...

hello mike :) há qto tempo! beijinhos

L. Rodrigues disse...

O teu primeiro parágrafo reflecte a saída normalmente adoptada nestas discussões, “não misturemos alhos com bugalhos, uma coisa é o objecto e o método da ciência e outra o objecto e o método da… teologia?”

A ciência talvez não possa provar a sua não existência, mas pode considerar a sua probabilidade tão ínfima que é negligenciável. Ou seja, que para tudo o que podia ser explicado com Deus, há uma série de hipóteses bem mais viáveis.
Além disso a ciência também encontra cada vez mais explicações para muitas experiências religiosas e místicas, à medida que vai conhecendo melhor os meandros dos nossos cérebros.

A ciência moderna não descarta as outras formas de saber, pelo contrário, engloba-as. Muitas superstições têm bases empíricas nada negligenciáveis. Eu por exemplo, acredito que dá azar fazer malabarismo com 3 martelos.

Quanto ao teor do artigo, de facto a segunda parte não está relacionada com a primeira a não ser no facto de demonstrar como quer nos opinion leaders quer na formação da opinião pública naquela que devia ser a forma mais impoluta, da educação, se joga muito sujo.

fcaldas disse...

Não foi isso que escrevi. Quem separou as águas foste tu. Eu só disse que a ciência até agora apenas pôde concluir que a afirmação "Deus não existe" a)não está comprovada; b) não é "escrutinável" pelos critérios de investigação actuais. São conclusões da ciência, não minhas.

Quanto às hipóteses explicativas mais viáveis, por enquanto não passam disso mesmo e é unicamente uma questão de fé o que te leva a optar por essas e não por outras.

Por último, a relação líderes de opinião / formação de opiniões / educação não é impoluta, devia ser, mas não é. A distorção existe em todos os âmbitos, como falámos outro dia; tu evidencias o religioso apenas porque é o teu saco de pancada actual.

L. Rodrigues disse...

Não posso dizer só mal do neo-liberalismo, outra matéria de fé em que os factos pouco contam... Ás tantas, cansa.

Uma das dificuldades de escrutinar Deus, vem da volubilidade das suas qualidades. Duas pessoas diferentes atribuem-lhe qualidades diferentes.

A ciência não pode descartar completamente a existência de uma entidade externa a este universo.

Mas pode afirmar com muita segurança que uma entidade inteligente, benevolente, omnisciente, que ouve e intercede a pedido nas nossas vidas não existe. Para não falar das versões mais folclóricas.

Anónimo disse...

E qual é erro no argumento de deixar cada coisa no seu lugar? deus e a relação com este para a religião, assim como o conhecimento cientifico para a ciencia, a poesia para a arte,a etica para a filosofia, sem ter que impor um só tipo de pensamento (racional)a tudo?
Não se ouve ou sente a musica (só) com a razão.
Penso que não se deve é misturar tudo e usar crenças no que devia ser o dominio da razão, embora
Também possa ser empobrecedor, acho, sujeitar tudo (a ideia e a relação com os outros ou com natureza ou com obras de arte ou até com deus) a um pensamento cientifico, mesmo que a ciência explique esses porque ocorrem esses factos, relações ou ideias...serão campos diferentes.
sandra

L. Rodrigues disse...

Sandra,
Podemos deixar Deus e a relação com este para a religião.
Mas só se a religião ficar fora da psicologia, da sociologia, da economia, da aula de ciências, da ética...