24 julho, 2009

O topo da pirâmide e a armadilha da ética.

Em dois posts de 2006, aflorei um estudo de Neuroeconomia que demonstrava a existência de 2% de pessoas que são incapazes de cooperar, e de respeitar as regras básicas de reciprocidade que alicerçam as construções sociais. Nesses estudo era identificado um neurotransmissor, a Ocitacina, como estando deficientemente representado nesses indivíduos.

Na altura não pensei nisso, ou não sabia, mas o número de 2% é consistente com o que já se sabia há algumas décadas na psicologia/psiquiatria. Há 2% de pessoas que são indiferentes ao sofrimento dos outros. Milgram, antes de executar a sua famosa experiência (que demonstra que em certas situações todos nos podemos tornar monstros), perguntou aos seus colegas qual a percentagem de pessoas que previam que fosse infligir sofrimento aos "sujeitos" da experiência. E a resposta foi 2%, o número de sociopatas médio.

Agora, imaginemos uma ordem socio/politico/económica, que recompensa de forma substancial os comportamentos egoistas. Imaginemos que o egoismo — tratar apenas de si próprio, deixar que cada um trate de si — é considerado a única atitude verdadeiramente moral. Uma sociedade assim vai forçosamente ter uma proporção muito maior daqueles 2% nos seus exemplos de "sucesso". São esses os que vencem, os que servem de exemplo, e os que acabam por deter o poder, e ter maior capacidade de influenciar as próprias sociedades.

Tenho a certeza de que demonstrar o que digo é simples, matematicamente, e do senso comum sem precisar de fórmulas nenhumas.

Ou seja, imaginando que, por absurdo extremo, acontecia agora algo do género da revolução francesa, iriam morrer muito menos inocentes na guilhotina. Mas, felizmente, para mim e para 98% de quem me lê, isso ainda seria intolerável e por isso, infelizmente, os psicopatas podem continuar tranquilamente no poder.

3 comentários:

CPrice (once) disse...

Não acompanhei os postais na altura e li-os agora. Retive esta frase “Ocitacina, que está associada às relações entre progenitores e crias” que me faz pensar então porque não injectar o componente que vejo fazer tanta falta em tanta gente, com e sem crianças, a saber ou não tratar delas, a mimá-las ou a deitá-las nos contentores.
Pura raiva de uma realidade que não consigo mudar e me põe doente.
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Quanto aos FDP subscrevo na íntegra o comentário que a Marta deixou na altura.

2% ? .. é demasiado.

:) votos de bom fim-de-semana Caro L.

L. Rodrigues disse...

É, miss Once, dá vontade. Mas entra-se no campo da Eugenia. Creio que o melhor mesmo é termos uma sociedade capaz de dar respostas humanas e justas à imensa variedade das pulsões humanas, preservando-se dos extremos sem a tentação de os exterminar.
Ou seja, no seu exemplo, uma sociedade que tenha uma resposta automática e benigna a uma mãe incapaz de criar (por não querer ou poder) o seu filho, para que ela não tenha que olhar para o contentor como uma opção.

CPrice (once) disse...

a isso se chama "controle da raiva" Caro L. .. bem mais eficaz e sensato sem dúvida alguma.
As consequências dessa postura (a ideal) seriam certamente interessantes de analisar.