28 setembro, 2008

O post da crise financeira.

Este blogue deve o seu início a uma inquietação que me começou a assolar há uns, poucos, anos. Á minha volta sentia que o mundo tinha mudado numa direcção que não me agradava. Uma consciência algo tardia, talvez, mas desde logo intensa.

Tomei consciência de uma crescente desvalorização do trabalho. De uma prepotência desumana disfarçada de exigência ou até "excelência", palavra que me dá pele de galinha. De uma aposta estratégica em ganhar mais, mais depressa, indo pelo caminho mais fácil: pagar menos a quem trabalha, mais a quem decide.
"Decidir é trabalhar, oh palhaço!", já estou a ouvir. Decidir é poder, respondo eu. E assistimos a um poder irresponsável e ingrato.

Adiante. Tentei perceber o que se passava. Daí a minha leitura de alguma história económica, que me levou ao campo mais próximo da psicologia, e da sociologia. Sempre sem maiores pretensões do que construir um retrato global. O destilado desse percurso foi vertendo aqui neste espaço.

A partir de certa altura, estava sinceramente céptico. Não via uma forma mais ou menos pacífica de dar a volta à coisa. O discurso dominante era de tal modo insidioso que impregnava mesmo os que historicamente tinham nascido da luta contra essas mesmas ideias, lá longe no século 19.

Achava eu que as catástrofes que iriam colocar tudo em causa seriam de ordem ambiental, ou energética. Elas estão aí anunciadas, no horizonte das gerações agora activas.

O mercado antecipou-se. E na verdade faz sentido, porque vive em ciclos muito mais curtos, mensais, trimestrais. O aquecimento global é uma coisa que "não se sabe bem", e o pico do petróleo dói mas aperta-se um pouco o cinto e lá se vai andando.
Mas os milhares de prestações que não se pagam, por não haver emprego, por a gasolina estar cara, por a comida ainda mais, por o ensino e a saude serem cada vez mais caros para responder às leis do mercado... aí o prazo é curto, é o fim do mês. E o resto é uma questão de massa crítica.

Por isso acho que é desta. Na verdade, espero que seja desta, que as leis de Murphy obrigam à prudência.

Aquando da crise de 29, foi o "New Deal" que salvou a coisa, reza a história. O New Deal era tão somente investimento publico (Keynesianismo, dizem os entendidos) que gera emprego e dinamiza uma economia em estado de choque e crise de confiança. É o trabalho das pessoas, que tão mal tratado tem sido, que é a economia real. É esse que tem que ser valorizado, protegido, dignificado. E não esquemas de pirâmide.

A verdadeira razão pela qual escrevo este post, cheio de coisas que se podem ler em qualquer lado, é partilhar a minha esperança acerca desta situação toda.
Em 29, acabou por ser a Guerra o grande dinamizador. De resto, a América nunca deixou de ser Keynesiana, mesmo quando esse nome passou a palavrão, graças ao seu investimento (público) na coisa militar. Dá trabalho a muita gente, mesmo.

Agora dava jeito era não ser preciso outra guerra mundial.
E é por isso que as outras crises anunciadas, que podem tranformar-se numa questão de vida ou de morte se considerarmos os cenários mais negros, são a Grande Batalha que deve canalizar os recursos e de caminho criar empregos, paz, prosperidade e um mundo mais limpo.
Criar novas fontes de energia, casas e carros mais eficientes, redesenhar cidades, repensar as relações de trabalho e com o trabalho, reestruturar o comercio internacional numa optica de desenvolvimento e justiça, tudo isso pode e deve ser feito.

Naomi Klein publicou há meses o seu "The Shock Doctrine" onde cunha o termo "disaster capitalism" onde retrata casos em que o mais diverso tipo de calamidades serve de oportunidade para implementar a filosofia politica que nos deu esta crise financeira, o aquecimento global e o petróleo a 100 dólares.

Está na altura de emergir um "Disaster humanism", à falta de melhor termo. Eu terei os dedos cruzados durante os próximos meses. Mas espero que isso não me impeça de escrever aqui :P.

10 comentários:

Once disse...

eu também espero Caro L. Rodrigues .. espero em primeiro lugar que consiga escrever com os dedos cruzados .. e espero que tenha razão naquilo que tão esquematica mas explicitamente nos dá a ler hoje.

.. a propósito "do" Murphy recordo uma conversa em janeiro com um jornalista amigo que me dizia à laia de aviso: "começa a forrar a tua dispensa" .. achei um disparate na altura..

ana disse...

Olha, mais um excelente e conciso texto sobre algo tão complexo, olhado da forma mais humilde e inteligente que consegui ler nos ultimos meses sobre o tema. Obrigada.

Once disse...

obviamente que não me dispenso de corrigir o lapso idiota ali de cima .. "des" .. ;)

L. Rodrigues disse...

Demorei a perceber que ser referia à despensa, Miss... dedos cruzados, então.

Obrigado nós, Ana. ;)

mike disse...

Eu também, L. Espero que isso não te impeça de escrever aqui. G'anda post.

Anónimo disse...

A supremacia militar do ocidente exige dinheiro, muito dinheiro e esse está a ir cada vez mais para oriente. Assim, prevejo que a médio prazo o ocidente tenha dificuldade em manter a sua supremacia militar. Outra(s) Superpotência(s) aparecerá(ão), de resto como decorreu ao longo da História. Nós estamos no fim de uma era: O ocidente vai atrofiar-se em todas as suas vertentes (incluindo militares), enquanto o oriente irá expandir e aumentar o seu vigor.

Zé da Burra o Alentejano

Al Kantara disse...

Excelente post.

L. Rodrigues disse...

Zé da Burra, é certo.
Também é certo que já vai sendo tempo de os povos andarem a perder tempo a comparar pilinhas. Se os oceanos começam a subir, quando muito pode ser menos mau para quem tenha uma boa marinha...
De resto, é mais positivo reconhecermos que estamos todos no mesmo barco.

Obrigado, al kantara.

João Villalobos disse...

Não é que servisse de alguma coisa para resolver o desastre, mas seria bom que nos encontrássemos um dia destes :)

L. Rodrigues disse...

Eu acho que ajudava. Até breve :).