18 abril, 2006

Sem ideias, mil ideias

Face aos muitos e diversificados cenários apocalípiticos que se nos deparam, podemos dividir-nos entre indiferentes, pessimistas e optimistas. Como os indiferentes por definição têm pouco a dizer, vale a pena olhar para as outras duas posições.

A questão que se coloca é se vamos ou não ser salvos pelo engenho e tecnologia. É inquestionável que a aceleração a que assistimos nos últimos 100 anos se deve a um inigualável ritmo de inovação e alargamento do conhecimento científico e tecnológico.

Os optimistas afirmam que esse ritmo tende a acelerar ainda mais, já que as redes de circulação de informação são cada vez mais vastas, o número de pessoas com formação é cada vez maior e assim, um pouco como a famosa lei de Moore previa a exponenciação do poder dos computadores, a capacidade de computação do Mundo estará também sujeita a esse efeito multiplicador. Vistas assim, as possibilidades são ilimitadas, seja no campo da engenharia, da biogenética, da energia etc etc. A posição "alguma coisa se há-de arranjar" parece razoável.
A juntar a isto, os optimistas apontam os falhanços das previsões dos pessimistas, que nos principios dos anos 70 apontavam para um fim do mundo que, a estas horas, já devia ter acontecido.

Mas há sempre espaço para ser pessimista. Um senhor esteve a fazer as contas e concluiu que o pico de inovação/per capita da humanidade, aconteceu por volta de 1900. De então para cá, o número de ideias novas por cabeça, ao contrário do que nos diz o senso comum, decresceu. Creio que aqui o critério excluiu da inovação a miniaturização ou a produção em massa. Coisas que são inovações nos nossos quotidianos muitas vezes existem há décadas nos laboratórios.

Para contrariar o efeito multiplicador dos optimistas, os pessimistas apontam para o efeito dos "ramos mais baixos" da árvore do conhecimento. As coisas que estavam ao alcance com poucos recursos já foram todas colhidas e agora, para descobrir algo de novo, são precisos cada vez mais meios. Edison teve o seu tempo, mas para avançar na fisica quantica, na nanotecnolgia, ou na biotecnologia são precisos muitos milhões de tudo.

Outro factor que vem pôr travão no avanço e disseminação do conhecimento é o exacerbar dos direitos de propriedade intelectual que, segundo alguns, foram revistos para proteger os interesses das indústrias de entretenimento e farmacêutica, mais do que para proporcionar um clima saudável para a criação e propagação de ideias.

Os pessimistas sublinham que as matérias primas acabarão por se esgotar, os optimistas que as matérias primas mudam porque as pessoas não precisam de cobre mas sim de meios para transportar energia, por exemplo, o que coloca o limite na criatividade e não nos recursos naturais.

Seja quem for que tenha razão, a sensação que fica é de um braço de ferro a contra-relógio. Queremos que os optimistas tenham razão por um lado, porque é a nossa pele, mas queremos que os pessimistas sejam ouvidos, porque é a nossa pele.

16 comentários:

Vasco Lopes disse...

Viva

Não creio que o pico de inovação per cápita tenha sido em 1900.
Mas, eu não fiz o estudo.

É que Inovação é "algo novo que da dinheiro"
Por isso, em Laboratório n se inova.
A Inovação decorre do reconhecimento financeiro pelo mercado.
Nesse sentido, creio que NUNCA, como hoje se ganhou tanto dinheiro como hoje com "inovações"
obviamente que nem sempre se percebe que existe inovação, principalmente quando se trata de produtos que já conhecemos.
contudo, sempre que alguém "alonga" um ciclo de vida de um produto.. ou lhe dá nova "cara" (fala-se de restyling) está a inovar. Neste caso inovação significa mais dinheiro "que aquele que seria expectável"

L. Rodrigues disse...

Caro Vasco Lopes,

Creio que partimos de conceitos completamente diferentes.
A inovação de que faço é a que provoca mudanças civilizacionais. Como a lâmpada eléctrica, o motor de combustão interna, o transistor, a fissão nuclear ou a penicilina.
Mudar a cor do pacote de batatas-fritas pode fazer sentido do ponto de vista do gestor de produto, e gerar dinheiro. Mas faz muito pouco pelo nosso bem estar, e ainda menos pelo nosso futuro.
Inovações, tal como as que define, diria que já fiz até demais, e na verdade nada mudam a não ser a direcção e o caudal do fluxo do dinheiro. O que não acrescenta valor ao bem comum.

L. Rodrigues disse...

(*Inovação de que falo)

João Villalobos disse...

Vá não sejas modesto. A inovação que fazes não é nada má :)

Eu, no aspecto, tecnológico, tendo a concordar mais com os optimistas quanto à substituição de uns recursos por outros. Já quanto aos direitos, existem questões mais preocupantes.
Ou seja, para mim a garrafa está meia cheia e meia vazia ao mesmo tempo (o que aliás é uma constatação óbvia ;)
Abraço

L. Rodrigues disse...

Se quando falas dos direitos te referes, por exemplo, à propriedade intelectual de genomas, é de facto um dos aspectos mais preocupantes, que proporcionará um artigo futuro.

José, o Alfredo disse...

O que vou dizer não é nada de inovador, corre até o risco de ser uma banalidade total, mas cá vai. A aceleração traz um dado novo à equação, que é o da supressão do hábito de reflectir. A informação que circula não se limita a circular mais depressa e em maior quantidade. É informação pior, porque uma boa parte é ruído e porque pelo caminho encontra uma data de gente muito pouco preparada para a descodificar, muito mais apta a retransmiti-la apenas, na melhor das hipóteses, a distorcê-la e inutilizá-la, na maior parte dos casos, ou mesmo a pervertê-la completamente. Atribuir à mudança da cor do pacote da batata o mesmo significado da chegada da batata à Europa, ou da descoberta da possibilidade do cultivo da batata, é bem o exemplo que qualquer pessimista facilmente daria para ilustrar esta banalidade. Já o indiferente trincaria mais uma batata frita e passaria adiante. O optimista... há aí algum que possa dizer o que diria um optimista (a este respeito ou a outro qualquer)?

A disse...

Talvez o aumento da inteligencia humana que se tem verificado nos ultimos anos, esteja precisamente num composto mais realista de optimismo e de pessimismo numa só individuo. O que resulta tão só e apenas numa coisa muito simples: fé. Fé no ser humano, porque sem essa ténue esperança, nada faz sentido, certo? Eu sou a optimista por necessidade, evidentemente. E digo que a dita inovação no pacote de batatas fritas é junk necessário.
Mais algum optimista por convicção por aqui?

A disse...

Ah, desculpem o uso de uma palavra que não é nossa, saiu-me como imediatismo. Alteremo-la pela palavra "lixo", ou desperdicio de recurso.

L. Rodrigues disse...

Caro José, o Alfredo.

É bem verdade que o homem comum da rua está cada vez mais desinformado, por todas essas coisas que disseste. A questão que abordo tem mais que ver com os meios científicos, onde, espero, a informação ainda será devidamente filtrada e revista.

L. Rodrigues disse...

Caríssima A.

O aumento da inteligência humana... aí está uma afirmação que carece de explicação :).

Estamos mais inteligentes enquanto espécie? Ou as nossas sociedades estão a produzir genericamente cidadãos mais informados?

A disse...

Na Universidade de Londres, de 2000 a 2003 realizou-se aquela que foi considerada a maior experiência matemática da História. Num Universo de 7000 pessoas, divididas em várias faixas etárias, constatou-se que o cérebro humano nas novas gerações, expostas a um maior número de informações e estimulos, aumentou em 30% o seu renidmento face ás gerações mais idosas estudadas. QI + QE, bem entendido. Haja esperança, LR;)

sm disse...

Também me considero optimista por necessidade...
À medida que as matérias primas forem faltando(ou, ainda pior, o nosso planeta e arredores sejam estragados) iremos arranjar outras maneiras de viver (nem que seja prescindir do que nos parece imprescindivel hoje e desenvolver outros caminhos quaisquer por onde "evoluir" e a que não temos ligado nenhuma).
O que não significa que se não lute por preservar o que nos rodeia, óbvio (nem que seja pela luta da cultura que é a nossa).
Por outro lado, a ideia da evolução ou não do homem é um assunto delicioso :)

L. Rodrigues disse...

Cara SM,
a questão está nesse equilibrio entre a nossa capacidade de mudar, e a nossa capacidade de mudar o ambiente à nossa volta. Suspeito que substimámos a última. Espero estar a substimar a primeira.

Quanto à evolução do homem, ela acontece, mas é lenta. Os exemplos dados pela minha amiga A. não correspondem a evolução no sentido, passo a redundãncia, evolucionista do termo. São manifestações de um fenómeno que apenas começa a ser compreendido, que é a plasticidade do cérebro.

L. Rodrigues disse...

subestimar, é o verbo.

João Villalobos disse...

Ema, ena, isto está cada vez mais movimentado. Vê se podes aparecer na sexta no Palácio Galveias. Ab

sm disse...

eu também não falava no sentido evolucionista do termo.
Tenho a ideia de que as culturas que se foram sucedendo umas às outras alteraram a forma como os seres humanos apreendem e modificam a realidade e como sentem,pensam e reagem (nomeadamente a velocidade com que o fazem, já agora)