04 abril, 2006

O mundo já está a arder?

A humanidade tem vivido uma situação singular nos últimos 200 anos, mais coisa menos coisa. Os avanços tecnológicos que se foram desenvolvendo a partir da revolução industrial permitiram explorar imensas reservas de energia que se foram acumulando ao longo do tempo geológico da terra. Ou melhor, do tempo Biológico da terra, já que as fontes de energia principais deste período são produto da unica maneira conhecida de armazenar naturalmente a luz do sol: seres vivos.

Porque se pensarmos bem, a única energia que a terra recebe, é a do Sol. A termodinâmica diz-nos que a energia não se produz, apenas se liberta. E é isso que temos vindo a fazer, a libertar energia do Sol que estava presa nos restos de animais e plantas mortos. Carvão, gás natural e petróleo, os combustíveis fósseis. Substâncias de alta densidade energética.

É bom de ver que isto não ia durar sempre. Posto isto, o mundo volta-se agora para alternativas. É no entanto curioso pensar que esse alerta é dado por acontecimentos geo-políticos, que incluem uma guerra, pelo menos. Pensar-se-ia que bastava pensar um pouco e fazer as contas para perceber que isto era insustentável mas foi preciso um país orgulhoso decidir que não podia ser dependente de outros que considera inferiores para soarem os alarmes, alto e bom som.

Mas o problema adensa-se quando pensamos nas alternativas. Há um numero dramático que coloca o problema na devida perspectiva.

O consumo de combustíveis fósseis num ano, actualmente, corresponde a 400 anos de biomassa da Terra. Ou seja: teriamos que queimar todos os seres vivos da Terra 400 vezes, para obter o que precisamos para manter o nosso estilo de vida.
Não costumo fazer destaques, mas este facto achei que merecia.

É por isso que pensar em Bio-Diesel, Etanol, e outros combustíveis renováveis, é uma ilusão que se for alimentada pode tornar-se um problema ainda mais grave que a falta de petróleo.

Substituir esta energia toda pela outra única fonte disponível, a do átomo, pode parecer tentador. Mas se hoje em dia as toneladas de lixo nuclear são já um problema, nem quero imaginar o que seria num mundo completamente convertido...

Então que nos resta?
Eu diria, olhar para o sol, para o vento para a água.
Plantar árvores (tenho este sonho de reflorestar o Alentejo...).
E diria também que apostar na agricultura pode ser uma excelente ideia.
Uma consequência de uma subita e alargada crise de energia pode ser a revitalização de economias locais, tornadas insustentáveis as estruturas de transporte e conservação a grandes distâncias....

Não creio que regressemos à idade da pedra. Mas a nossa melhor esperança é desacelerar, largarmos a dependência da energia de alta densidade em favor de formas mais racionais de vivermos.

(este assunto não fica por aqui... )

18 comentários:

João Villalobos disse...

Boa malha! Só tenho pena da quebra paisagística que são os moinhos eólicos no topo das montanhas e serras...et lasse.

Abraço

L. Rodrigues disse...

No caso português até estou em crer que não seria necessário termos florestas de hélices.
Se construíssemos as casas como deve ser, cada prédio podia ser quase autosuficiente, e muito mais confortável, por exemplo.

No caso dos dois projectos que se avizinham e que vão consumir muito do nosso dinheiro: o aeroporto e o TGV... parece-me que o TGV faz mais sentido do que o aeroporto, face ao panorama das próximas décadas.

L. Rodrigues disse...

Quero com isto dizer apenas que, antes de considerarmos o fim da civilização podemos começar por optimizá-la em termos energéticos. Basta ter em conta a realidade e pensar a longo prazo em vez de curto.

A disse...

Desacelerar! Algo me diz há muito que é isto sim.
Complicadissimo, uma utopia ainda talvez, mas como todas as utopias, possivel, quando passa a necessidade urgente!
Se eu gostei deste texto...

L. Rodrigues disse...

Há um optimismo cataclísmico, não é? Mas é um pouco a sensação que tenho: ou isto endireita a tempo ou está tudo tramado. Estamos no fio da navalha entre o céu e o inferno, e temos que cair para um dos lados.

José, o Alfredo disse...

Alguém me pode esclarecer sobre o que se entende por et lasse?

L. Rodrigues disse...

Literalmente, "e cansa".

José, o Alfredo disse...

Bem sei que o assunto não é este, mas, já agora, em que língua? Se calhar a culpa é do Pinker...

L. Rodrigues disse...

francês, de frança.

José, o Alfredo disse...

Oh la la.

Fellao disse...

Desacelerar?! Eu não tinha muita esperança. Quanto a mim a causa de todos os problemas está na aceleração exponêncial em todas as áreas. Parece que o facto de termos uma limite de horas de vida, leva-nos a querer atingir a imortalidade endocronológicamente (não sei se existe este palavrão). Passo a explicar: se o nosso tempo está limitado com o nascimento e a morte (se bem que temos conquistado terreno aqui) temos que viver mais intensamente, para colmatar "...(sempre) esta sensação que estou a perder". À semelhança da teoria que diz que a divisão (da matéria) é infinita, assim pensamos ganhar tempo, dividindo-o cada vez mais. Mas (outra música de outro tempo) "we're going nowhere fast", não aproveitamos nada da viagem e o fim é irónico, acabamos como energia para alimentar esta obsessão. Espero que não tenha ocupado muito do vosso tempo.

João Villalobos disse...

Caro José, o Alfredo

et lasse usa-se no sentido de «infelizmente». Com um tom de inevitabilidade. :)

Abraço

L. Rodrigues disse...

Fellao, é um problema paralelo, esse de que falas, que se mede à escala pessoal e social. POdem ser sintomas da mesma doença, de facto. O problema é que a alternativa a desacelerar é bater contra uma parede.
Receio que vá doer bastante, se assim for. De uma forma ou de outra, como diziam os REM... "it's the end of the world as we know it, and i feel fine"

José, o Alfredo disse...

O que se usa no sentido de infelizmente e com um tom de inevitabilidade poderá dizer-se et lasse mas habitualmente escreve-se hélas. :)

maria disse...

Tenho tanto para dizer sobre isto... mas agora falta-me tempo.Que vida danada! Vou voltar aqui quando tiver um bocadinho disponível.
Um abraço.

L. Rodrigues disse...

Aguardo em trepidante espectativa.
Um abraço.

Vasco Pontes disse...

Belo blog,l.rodrigues. Sério, a contra-corrente. Retomando um hábito antigo de pensar a coisa pública como nossa coisa.

L. Rodrigues disse...

Obrigado. Sou apenas um curioso que não gosta de ficar sem respostas, nem gosta de confundir o senso comun com o bom senso. :)