09 maio, 2006

Velhos e bebés

Quando ouço falar da crise da segurança social, das suas causas e das medidas preconizadas para a enfrentar, fico sempre meio confuso.
O consenso, mais uma vez ele, é que a situação caminha para a insustentabilidade por causa do envelhecimento da população.

Nesse caso, façam-se mais bebés, promovendo aquilo que faz as pessoas constituir famílias: emprego, estabilidade, capacidade de estabelecer estratégias de vida, tempo para as crianças etc.

Ok... não há dinheiro para isso. Então importemos gente em idade de trabalhar, vulgo imigrantes. Mas, se não há empregos... vão trabalhar no quê?

Outro ângulo da solução era aumentar os ordenados, digo eu. Se as pessoas pelo seu trabalho receberem mais, e pagarem mais impostos, as receitas aumentam....
Mas aí coloca-se o problema da produtividade. Os produtos portugueses ficavam menos competitivos.

Mas se a ideia é afirmarmo-nos pela qualidade e qualificação, pela elevada capacidade tecnológica e de inovação, merecedora de um choque, das nossas industrias, sermos verdadeiros finlandeses ao sol, se calhar não era má ideia deixar de lado de vez esta obsessão da mão de obra barata.

Por outro lado ainda, não sou conhecedor das contas do estado, mas ouço dizer que há dinheiros desviados da segurança social para outros fins. Ora se isto for mesmo assim, não há sistema que resista. E é desonesto andar a dizer às pessoas que ele não funciona, ou está caduco.
Não duvido de que padecemos de problemas de eficiência, derivados sobretudo de baixos níveis de responsabilidade. De uma forma geral ainda tratamos o que é de todos como se não fosse de ninguém. Mas isso não significa que o sistema não funcione, se bem usado.

E depois, no fim de tudo, a história do envelhecimento da população pode ser um falso problema. È certo que os avanços da medicina nos permitiram potencialmente viver mais tempo.
Mas ao mesmo tempo fizemos evoluir as nossas sociedades “modernas” para hábitos alimentares horríveis que criam percentagens enormes de crianças obesas e fizemos evoluir os ambientes de trabalho para focos epidémicos de doenças derivadas do stress.

Ou seja, afinal, os nossos filhos são bem capazes de vir a viver menos tempo que os nossos pais, a continuar este estado de coisas. Se calhar é a isto que chamam a mão invisível... tudo acaba por se compensar...

11 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

Além, Caro L.Rodrigues, da vaidade do Homem. Repare que é nas comunidades menos ricas, quer em comparação nacional, quer na classista, que se fazem mais filhos. Daí a interiorizar que filharada extensa é índice de pobreza vai um passo. E conformar-se com tal, está quieto!
Tudo gira à volta da cabeça das pessoas, mesmo quando ela parece estar de férias.
Abraço.

L. Rodrigues disse...

Os ricos têm um mundo para dar aos filhos, enquanto os pobres apenas têm filhos para dar ao mundo...

pmrodrigues disse...

Os emigrantes é solução no curto prazo. Após a integração cultural e social se o País de acolhimento não ajudar a ter filhos e a criá-los, adaptam-se e teem menos.
Hoje um filho bem criado e educado, com as tais competencias para vir a ser um cidadão trabalhador em areas inovadoras, criativas de alto valor cientifico ou tecnológico,custa muito. Tenho dois e as despesas de educação lá de casa ascendem a 4000-5000 euros anos.E a ajuda vem donde?? Só da familia.PMR

Vasco Pontes disse...

Bem pensado. Mas acho que ainda há um passo para dar: É que, por um queixamo-nos do crescimento populacional mundial, que coloca problemas graves de sustentabilidade a prazo; por outro aqui d'el rei que a população não cresce: mas porque é que tem que crescer? com os ganhos de produtividade existentes não seria lógico parar esta lógica suicida do crescimento, pelo crescimento, pelo crescimento?

Vasco Pontes disse...
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L. Rodrigues disse...

Caro Vasco,

É verdade, o imperativo do crescimento é um absurdo económico. O planeta não cresce. O problema tem sido que os ganhos de produtividade são canalizados para uma minoria, bem no topo da piramide social, e portanto os que estão logo abaixo pressionam no sentido de alargar a parte que lhes toca.
Sempre à custa dos que estão mais abaixo, que são 80% de nós, e do futuro de todos.

João Villalobos disse...

Caro Luis,
Se quiseres, podes também visitar-me agora noutro blogue de estilo bem diferente em
www.corta-fitas.blogspot.com
Abraço

L. Rodrigues disse...

Já vi ;)

Mike disse...

Creio que já ninguém se queixa do crescimento populacional. Por mais que numa visão pragmática, mas quiçá preguiçosa e algo leviana, a sustentabilidade esteja, aparentemente, ligada ao crescimento populacional, a atitude correcta sobre o assunto e a visão mais esclarecida apontam noutro caminho. Porque caímos na falsa justificação de que o crescimento populacional é o responsável pela debilidade da sustentabilidade. Pois... Mas a verdade, inquestionável, é que o progresso social, as novas ideias, a renovação da energia das comunidades só se faz com sangue novo. Com pessoas novas. E isso, meus caros, só se consegue com o "abominável" crescimento populacional. O problema não está aí. O problema e as soluções que devem ser encontradas, estão do outro lado, assumindo que o crescimento é inveitável e simultaneamente indispensável. Mais uma vez há que renovar mentalidades e, provavelmente, caminhar em direcção ao back to basic, com tudo o que isso possa representar, incluindo sacrifícios pessoais em prol dum melhor e mais saudável tecido social.

L. Rodrigues disse...

Bem vindo, Mike.
Contesto que o crescimento seja inevitável e indispensável. Uma população estabilizada renova-se. Morreu uns, nascem mais ou menos os mesmos, fica assegurado o sangue novo.
Por muito que nos custe admitir há milites para o que o nosso planeta sustenta.
Um estudo que me citaram indicava curiosamente o nivel de consumo de Portugal em 1995 como o máximo sustentável, se fosse igual para toda a população do planeta.
Há um equilibrio a encontrar. No nosso nivel, com esta gente, abaixo com mais, acima com menos...

L. Rodrigues disse...

Também há limites para a dislexia digital... mas o Blogspot é inclemente.