22 maio, 2006

Sinais dos tempos todos

Como alguns dos (poucos…) leitores deste blog talvez se apercebam, não costumo primar pela frequência das actualizações. Por um lado porque tento tanto quanto possível dar alguma substância aos temas que abordo, e há limites para a substância que cabe nesta pobre cabeça. Por outro, tento não ser demasiado repetitivo. O que também não é fácil.

O nosso tempo é atravessado por alguns grandes temas, mas poucos. Tudo o resto são derivações do mesmo. Clima, energia, economia, radica tudo no mesmo, uma ideia de progresso e sustentabilidade, a tentativa de continuar a andar para a frente deixando o menos possível da humanidade para trás.

Mas mesmo esta ideia, que parece nobre, pode ser interpretada de forma perversa e destrutiva. Há muitas comunidades humanas nativas que preferiam ser deixadas aos seus hábitos e costumes. Vale mais ser um rei, ou um guerreiro, na idade da pedra do que um sem-abrigo no século XXI.

Recentemente, uma baronesa com assento na Câmara dos Lordes, inglesa, acusou duas tribos bosquimanes do Kalahari, no Botswana, de quererem continuar na idade da pedra. Inadmissível!

Passou-lhe ao lado que as populações já realojadas em campos, vivem desenraízadas do seu modo de vida, sem mais do que esperar a chegada do alcoolismo, da SIDA, e outras “conveniências” da vida moderna reservadas para quem está destinado a não ser privilegiado em África.

E não lhe causou repugnância que este desalojamento forçado fosse provocado pelo conluio entre o governo do Botswana e a De Beers, de nome, Debswana, detentora dos direitos de exploração de diamantes no território dos Bosquímanes, que de resto lhe pagou a viagem em que ela tirou tão eloquentes conclusões.

O nosso tempo é de paradoxos. Enquanto uns tentam resolver os problemas de sustentar vida Humana em Marte, os que verdadeiramente sabem como se sustenta a vida Humana na terra vão sendo eliminados, em nome do progresso.

Não sou um romântico adepto do regresso a uma vida de caçador recolector, isso não é para mim, e não pode ser para todos. Mas não nos fazia mal aprender com os que vivem em harmonia com os ambientes mais inóspitos da terra, em vez de os extinguir. Um dia podemos ser forçados a imitá-los.

8 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

Meu Caro L.Rodrigues:
é que o mundo que atravessamos substituiu a luta por um predomínio político pela uniformização das condutas. E cada vez restam menos refúgios para os párias. Como o demoliberalismo abarbatou tudo, salvo a China,em que só metade triunfou, sobe agora a tiranização maior, a que aplaina as heterodoxias não-contestatárias. Outrora só eram perseguidos os heréticos que afrontavam. Hoje são heréticos todos os que vivem diversamente.
Abraço.

A disse...

Olha que sensato texto.
Gostei desta pincelada no blog. Sinto isso mesmo: tudo se resume a andar de forma diferenciada sem deixar cair tantos pelo caminho , ou a empurrar todos para uma frente que nem sabemos bem qual é e atropelarmo-nos todos uns aos outros.
O exemplo foi muito bem conseguido.
Boa!
Beijinho meu.

L. Rodrigues disse...

Caro Paulo,
Um mercado uniformizado é muito mais eficiente, permitindo encontrar sinergias nos recursos e minimizar desperdícios, Àmen. (isto para os verdadeiros crentes).

Cara A.
Obrigado pelo encorajamento. Sensato... será que isto ainda lá vai com sensatez?

João Villalobos disse...

Post magistralmente escrito! Só gostava de saber a fonte que associa a viagem à diamantífera. Abraço

L. Rodrigues disse...

Cortesia de George Monbiot, www.monbiot.com

e do governo britãnico:

http://www.parliament.the-stationery-office.co.uk/pa/ld199697/ldhansrd/pdvn/lds06/text/60313-26.htm

marta r disse...

Tem toda a razão, l.Rodrigues. E não é preciso ser saudosista ou romântico para perceber que há modos de vida arcaicos em termos de desenvolvimento e progresso de onde poderíamos retirar grandes lições de humanismo. E menos diamantes também...

L. Rodrigues disse...

Sim, não esquecer os diamantes. Não há promessa de amor que saia dignificada disto...

Mike disse...

Diamonds are the women best friends. Isso ajuda a explicar a absurda posição da baronesa. (Achei o texto uma preciosidade).