18 maio, 2010

Nós e os Eles

Suponho que seja um dilema mais ou menos constante para quem pensa nestas coisas (o estado do país, da sociedade, da Europa, do Mundo). Onde é que podemos deixar de dizer e assumir que temos culpa, responsabilidade, e passamos a apontar o dedo aos "outros". Os proverbiais "eles" das conversas de café.

É inegável que há uma dimensão colectiva nas nossas existências. Nós, enquanto país, nação, povo, temos tido dificuldade em encontrar formas de assegurar minimos decentes de sanidade política, social e económica. Mas quando debatemos estes assuntos, com frequência atribuímos a culpa dessa incapacidade a "eles". "Eles" são os que detêm o poder político e económico, os que detêm a capacidade de fazer, decidir, agir a níveis que afectam muitos, ou todos.

É culpa nossa, em boa medida, que "eles" exerçam esse poder de forma distorcida, discricionária, para provento de poucos, à custa de todos. É culpa nossa, porque "Eles" não o fariam dessa forma se não o pudessem fazer com a impunidade que a nossa complacência, resignação e em certa medida cumplicidade lhes permite.


Hoje de manhã ouvia a eurodeputada Ana Gomes falar sobre a Grécia. Lá vive-se um enorme tumulto social e político. A voz oficial dos media diz: Os Gregos andaram a viver acima das suas possibilidades e, ainda mais, aldrabaram as contas que tinham que prestar ao Euro: ou seja, foram gastadores e fraudulentos.

Neste caso, o "Nós" grego está condenado a uma sessão pública de auto flagelação pelos seus pecados por muito e maus anos.

Mas nesta história também há "Eles" gregos. Os gastos excessivos do governo grego têm correlação com contratos multimilionários feitos com recurso a luvas, corrupções diversas e compadrios múltiplos. Quem envolvem equipamentos para os Jogos Olímpicos, material militar diverso, etc etc.

"Eles" são todos os decisores que traíram a confiança do povo grego, abusando das suas posições para fazer negócios ruinosos para provento próprio. (Não sei como é na Grécia, mas cá todos sabemos de que tipo de pessoas falamos e é vê-los a saltar de partidos para empresas e vice-versa).

Mas "Eles" também são os decisores alemães. Que do outro lado da mesa de um corrupto, há um corruptor. E muitos daqueles contratos multimilionários foram feitos com empresas alemãs, que estão sob investigação na Alemanha.

A Alemanha, no entanto, pela voz dos seus dirigentes trata a Grécia como uma espécie de indigentes terceiro mundistas que não se soube governar, mesmo com estes processos a decorrer internamente.



"Nós", temos uma responsabilidade individual, mas a maior parte de "Nós" pode quando muito dar um bom exemplo a meia dúzia de pessoas, ajudar de forma solidária mais umas quantas, podemos ser honestos e exigir honestidade em nossa volta. Mas o nosso poder de exigir esbarra frequentemente muito perto, por vezes logo nas relações de trabalho, por exemplo.

Logo aí, se calharmos a ter azar com o superior ou o patrão, já somos reféns da nossa própria subsistência. Se de nós dependem outros então a vulnerabilidade é ainda maior. E logo aí há uma relação de poder assimétrica. "Ele" põe e dispõe.

Apontar o dedo a "Eles" não é descartar a nossa propria responsabilidade, não é uma desculpa nem um acto de resignação. Provavelmente, é a única forma numa sociedade democrática e funcional de colocá-"los" em cheque. De "Os" lembrar de que o poder que têm e que tão mal usam lhes pode ser tirado se abusarem, se esticarem a corda e se insistirem em ser indiferentes às consequências dos seus actos.

A insistência na responsabilidade individual, em que cada um tem que cuidar de si e só de si, é o alibi que "eles" usam e que mais lhes convém.

É afinal é o truque mais velho do mundo: dividir para reinar.

5 comentários:

José, o Alfredo disse...

Nunca tinha visto a coisa por este prisma, mas dá-me ideia que a utilização que fazemos desse Eles acaba por ser o contraponto do dividir para reinar. Vou tentar explicar: "eles" começam por ser não mais que isso, "umas terceiras pessoas necessariamente plurais e potencialmente competitivas entre elas. Ao usarmos e abusarmos desse "eles", ao vulgarizá-lo e interiorizá-lo, criamos na nossa imaginação uma entidade colectiva, um conjunto homogéneo e provido de uma vontade ou um desígnio uno e indivisível. Ao vê-los, a "eles", assim, ao vê-los como um colectivo organizado e disciplinado, fazemos justamente o que deseja quem quer reinar: dividimo-nos a nós próprios, pois continuamos a sentir-nos sós e isolados, e conferimos a quem nos governa a força de uma união que originariamente "eles" não tinham e que de outro modo dificilmente viriam a ter.

L. Rodrigues disse...

"criamos na nossa imaginação uma entidade colectiva, um conjunto homogéneo e provido de uma vontade ou um desígnio uno e indivisível"

Hmm, não é uma criação da nossa imaginação. As centenas de think Tanks, os Bilderbergs e sei lá que outras formas de organização e promoção do status quo, estão aí.

E basta ver como no nosso caso o Bloco Central se organiza para distribuir panelinhas...

Caricaturando: São individuos que se organizam para negar aos outros a capacidade de se organizarem.

Diogo disse...

Olá caros amigos.
À distância, esse 'eles' (vocês sabem de quem eu estou a falar, um dia mais tarde eu falo - 'Palmelão'), são pequenos. Os outros 'eles' (os que nos governam há 36 anos), são na grande maioria incompetentes e levaram-nos para onde estamos actualmente. Não me venham dizer que a causa é a crise, que eu essa não papo. Ajudou, mas não tanto assim. Não somos só nós os descontentes da sociedade moderna, também os há em países mais desenvolvidos que o nosso.
Cá faz-se o que se quer, que o povo é sereno, na Grécia menos, que aqueles estão há muito tempo habituados a andar à trolha. Na Tailândia nem falar. Culturas diferentes de povos diferentes, e uns mais unidos que outros enquanto Povo.
O que se vê é que está tudo errado. Tive o privilégio de detectar isso depois de sair da Euro. A enormidade de vida própria que tu abdicas para 'eles' é assustador, e ainda por cima quando estás na espiral, não te apercebes, não ligas e não te faz falta à alma. Tá tudo (nesta sociedade) mal engendrado. Parem o jogo e mudem as regras, sff, para se começar de novo.

Anónimo disse...

Estavam a fazer falta estas reflexões de novo,L. O momento exige, vê lá se nos dás mais de "alimento" ,anda...
Kiss
Ana

Mike disse...

Por causa do "eles", e vá-se lá saber porquê, lembrei-me de uma música do Zeca Afonso. Vocês conhecem-na, chama-se Vampiros.