01 abril, 2008

Moldes do discurso

Via Beat the Press cheguei a este artigo do Washington Post sobre um novo boom de vida familiar em Manhattan. O artigo merece destaque porque se refere a estas famílias como "typical white, middle-class". Dean Baker lembra que esta "classe média" ganhar mais de 200 000 dólares por ano, ou seja, está nos 2% mais ricos do país, ou seja, de média não tem nada.

Lembrou-me uma coisa que acho que Pacheco Pereira, acho que na Quadratura do Círculo, dizia aqui há uns tempos, sobre a classe média portuguesa reduzir os seus hábitos de consumo, com as suas férias no Brasil e os seus Audis. Na altura fiquei a pensar se de facto aquela classe média seria vagamente média, ou apenas o seria numa visão enviesada da sociedade, em que tudo o que está perto parece muito maior do que o que está longe.

Eu vivo rodeado de gente que faz férias no Brasil e tem carros medianamente caros, mas sei que os publicitários não representam a classe média do país. E muito menos constituem o português médio. Pelo menos por enquanto, que isto não vai para melhor.

Isto é um problema, porque quando alguém que tenha responsabilidades, usa esta "classe média" como bitola, e decide agir de forma a beneficiar ou penalizar esta classe, (nomeadamente colectando mais ou menos impostos) essa medida corre sérios riscos de ser irrelevante num panorama mais amplo e realista.

Pior ainda é o problema se o tal responsável aceitar que a "classe média retórica" é privilegiada, mas depois aplicar a medida de "justiça social" à classe média real por via de um qualquer mecanismo burocrático.

Ainda pior, é esta noção de classe média tomar conta do discurso e relegar para as franjas da relevância política mais de 90% da população. Exagero? Talvez...

12 comentários:

José, o Alfredo disse...

Raciocínios de média com argumentos de média é o que dá: resultados de média e uma média de vida. Um grande monte de média.

Once In a While disse...

exagero? nem por isso, diria.

Paulo MR disse...

Média de Campo de Ourique ou de Telheiras, não é a média do País. O Pacheco quando fala em ajustamentos nos consumos da classe média, ignora as verdadeiras médias. E nessas, menos mentirosas, aumentaram as despesas com a casa, reduziu alguma com a alimentação, mas vai subei drásticamente, aumentou as despesas com educação, transportes, etc.. e a nossa Média é Low Cost Class em termos Europeus.
Acima da média mesmo ´so os lucros dos Bancos, da Energia e das Telecomunicações (monopólios, oligopolios ou carteis), nem sequer temos "mercado"
Essa é a tristeza da nossa Mediania. Muito acima da média é o Tempo de Luz Solar Diário. Haja uma Luz que nos dê alegrias.

Mike disse...

A classe média é uma classe social presente no capitalismo moderno, que se convencionou tratar como possuidora de um poder aquisitivo e de um padrão de vida e de consumo razoáveis, de forma a não apenas suprir as suas necessidades de sobrevivência, como também permitir-se a formas variadas de lazer e cultura, embora sem chegar aos padrões de consumo eventualmente considerados exagerados das classes superiores. Um aspecto ideológico comum a qualquer classe média é a ideia de que os filhos possam ter uma vida melhor que seus pais, numa esperança de que o futuro possa ser melhor que o presente ou o passado.
Bom, contrariando a Once, diria que sim, que talvez seja um exagero, e parafraseando o josé diria também que sim, que é tudo uma grade média... :)

L. Rodrigues disse...

Portanto, assumindo que os autores das afirmações se referiam à classe média nos termos em que a definiste, achas um exagero que eu conclua que 90% nao possa esperar, neste momento, um futuro melhor para os seus filhos (antes de responderes, lembra-te da perspectiva de um estagiário da nossa profissão há 20 anos, comparada com a de agora, isto para manter a perspectiva curta).

Mike disse...

Isso mesmo, meu caro l. Acho os 90% um exagero, como acho legítimo que me consideres um optimista e como acho, ainda assim, que apesar do meu optimismo (ou do teu exagero), que é tudo uma grande média. Sem me esquecer da tal perspectiva curta.

O Réprobo disse...

Meu Caro L.Rodrigues,
fundamentar exortações políticas nos rendimentos das pessoas, a partir do momento em que se ache garantido o limiar de subsistência, é que é um problema de classe média... em termos éticos. Mas eles não aprendem.
Abraço

L. Rodrigues disse...

É a democracia de mercado, meu caro,
um dólar, um voto.

Abraço

Paulo MR disse...

Desviaram bastante o assunto. Agora já discutem o que a classe média representa ou não. Mto bem. O erro original do Pacheco era a visão reducionista que tinha dessa suposta CM e (com férias no Brasil e Audis) que de média não tem nada.
Quanto ao acesso a bens e serviços essenciais digo que , sobretudo alguns que era suposto o Estado prover (educação, saude, justiça e segurança) estão a tornar-se mais caros e menos acessiveis.
As outras dimensões , mais relacionadas com o consumo de bens estão muito mais pulverizadas.(ver "the long tail")
E o peso relativo no cabaz de cada consumidor tambem tem variado substancialmente.
A maior incerteza é , mesmo que como pais asseguremos , por exemplo, o mesmo nivel de qualificação ou superior, aos nossos filhos, não é certo que tenham garantido, por isso, melhor nivel de vida no futuro. E isso é em termos geracionais, a primeira vez que isso nos acontece. ( e podem vasculhar a História toda)

Tárique disse...

Sobre esta "classe média retórica", apesar de não representar mais que 5 ou 6% da população, é a principal a ocupar o espaço mediático. É a esta classe que pertencem a maior parte dos fazedores de opinião, publicitários, políticos.

Esta classe vive numa bolha, dos seus bairros viaja de carro para o seu trabalho, por vias rápidas. Não anda em transportes públicos, não usa serviços públicos, é estanque às outras classes e à realidade. Nos media vê-se a si própria nas novelas, nos anúncios ...

A ilustrá-lo, vale a pena ler O Carlos Abreu Amorim que "duvida muito que o ensino privado só represente 7% do total".

Once In a While disse...

Ao professor ;) que ficou para aí quiça preso num molde .. os votos de bom fim-de-semana

Vinho disse...

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