14 agosto, 2006

Legitimocrisias

Recentemente tenho-me cruzado (curiosa palavra...) demasiadas vezes, com argumentos que insistem em fazer uma distinção moral entre actos e políticas que tenho, pessoalmente, dificuldade em distinguir. Que não se pode comparar os actos de Israel aos do Hezbollah... Que não se pode comparar uma democracia ocidental com a ditadura de Cuba... e por aí fora.

Irrita-me de sobremaneira que criticar Israel seja imediatamente identificado com "defender o terrorismo", e que deplorar os actos de alguns opositores de Fidel seja identificado como "defender uma ditadura".

Por um lado, é claro que a morte de inocentes é inaceitável, seja ela descriminada ou indiscriminada. Diz-se que Israel não tenta deliberadamente matar inocentes, que são danos colaterais, e que para isso usa armas sofisticadas e inteligentes. E que pelo contrário, os seus opositores o fazem. No entanto, se olharmos para as estatísticas das mortes de um lado e de outro, vemos uma enormidade de não combatentes mortos no lado libanês, enquanto do lado israelita a maioria das baixas são soldados. Na verdade este tipo de discussão deixa-me indiferente: uma morte é uma morte, seja de que lado for. Mas quando me dizem que há uma superioridade moral, gosto que me demonstrem.

Da mesma forma fiquei a pensar hoje a propósito de diversos comentários que vi a notícias relacionadas com a saúde de Fidel Castro, nas legitimidades das "Democracias Ocidentais". Condena-se uma ditadura socialista por condicionar a liberdade de expressão, e de opinião. E por o fazer violentamente.

O que distingue Cuba dos Estados Unidos, neste aspecto? Tudo, diriam uns. Mas se olharmos para os motivos invocados por sucessivos lideres americanos para justificar toda uma série de acções - desde assassinatos, golpes de estado, patrocínios de ditaduras de sinal oposto à de Castro etc -, a defesa do seu "modo de vida", vemos que não é muito diferente.

Afinal, Castro defende a Revolução. E não adianta tentar dizer o contrário, a maior parte dos cubanos ainda apoia Castro.
A diferença entre os Estados Unidos e Cuba será então que os primeiros matam para fora, e os segundos matam para dentro, em defesa do seu modo de vida.

Cá por mim, fico na mesma conclusão. Uma morte é uma morte, seja em nome de que modo de vida for. Mas não me venham falar de superioridade moral.

4 comentários:

Raquel disse...

Sem sombra de dúvida que é frustrante vermos, dia após dia, a noticia de milhares de mortes inocentes. Sim… ñ me venham dizer que todas aquelas crianças eram guerrilheiros experientes. É triste o que se faz com a desculpa que é em prol da liberdade. Liberdade de quem, para quem? Não haverá melhores formas de se chegar lá? Ou os interesses económico-politicos estão acima de qualquer ser humano?

L. Rodrigues disse...

A liberdade como valor absoluto é um falhanço. Porque não vale de nada ter liberdade sem responsabilidade.

Paulo Cunha Porto disse...

Meu Caro L.Rodrigues:
Nunca falarei de superioridades morais em política internacional, que considero uma contradição nos termos e com o contexto. Mas falo em alinhamentos: o "Hezbollah" simpatiza com os que mataram cobardemente inocentes civis ocidentais e, oh horror, até portugueses. E quer impor padrões sociais que nos são estranhos. Israel quer eliminar os que fizeram essas malfeitorias e não tenciona exportar nenhum modelo social antagónico ao nosso.
Custa dizer isto, mas os mortos, como os vivos, não são todos iguais.
Abraço.

L. Rodrigues disse...

Não acredito que os muçulmanos nos queiram impor essas coisas. Diria mesmo que os mais radicais entre eles nascem por considerar que o ocidente lhes quer impor padrões sociais que lhes são estranhos.
Israel ocupa um território que invadiu militarmente, e actua da forma mais desumana que se possa imaginar para tornar a posse desse território um facto consumado. Isso não tem nada que ver com a defesa dos meus valores. É, antes, um atentado a eles.
Israel também parece ter a sua "solução final" para a questão palestiniana. Custa dizer isto, mas...