Com alguma frequência, dou por mim a defender o indefensável.
A ultima ocorrência ocorreu por esses blogues fora. Um comunista, presumo, tentava explicar que sim, que houve erros, mas que não se podia ignorar o que tinha acontecido na rússia, e depois na união soviética, em termos de progresso industrial e científico, de artes, de, inclusive, progresso social e outros. De facto a Rússia czarista não tinha nada que ver com o país que mais determinante foi na derrota do nazismo, nem com o que colocou satélites no espaço.
(antes que me alargue, um "disclaimer": não sou nem nunca fui um entendido neste assunto, não conheço mais do que os protagonistas mais salientes e algumas pinceladas muito grosseiras sobre os diversos periodos em que se poderá decompor a história do século 20 à luz da revolução de outubro)
Claro que para um crítico da "experiência soviética" nada disto conta. E criticos não faltaram àquele comunista. A sombra de Estaline paira demasiado escura. Qual buraco negro, suga qualquer luz que pudesse vir daquele periodo histórico.
Acontece que, frequentemente, muito frequentemente, e recentemente tivemos exemplos disso, os que condenam o comunismo, identificando-o exclusiva e totalmente com o estalinismo, são os mesmo que defendem, defenderam, que quando se fala da Igreja Católica, ou da religião em geral, temos que deixar de lado todas as atrocidades cometidas em seu nome, ou de um deus qualquer, para nos concentrarmos nos homens de bem, nos santos, no conforto que as pessoas encontram na religião, etc.
Por outro lado, uma rejeição do comunismo baseada no número de mortos causados pelos regimes por ele inspirados, não pode deixar de ser acompanhada de uma rejeição do capitalismo pelas mesmíssimas razões e ordens de grandeza. É uma história menos contada, mas também está aí para quem quiser. Mas poucos querem fazer as duas críticas, ficando cada um do seu lado da trincheira.
Para mim, isto são dois pesos e duas medidas. E sobretudo ofusca a verdadeira causa do mal.
O comunismo não mata. Tenho para mim que o que mata é o autoritarismo. Mata em regimes comunistas, em regimes fascistas, mata em democracias, mata na Terra Santa e no Cambodja. Matou nas fogueiras da Inquisição, e nos Gulags da Sibéria antes e depois de 1917. O autoritarismo é o que torna o diferente abominável e a dissidência criminosa. É o que motiva multidões cegas de fúria, e legitima os carrascos e a desumanização das suas vitimas.
Podemos discutir se o autoritarismo é intrínseco ao comunismo, se este não pode existir sem aquele, da mesma forma que o é ao fascismo. Não tenho a certeza de que seja, já que por esse mundo fora também inspirou movimentos cuja bandeira foi sobretudo a liberdade, contra ditaduras tão sanguinárias como a de Estaline mas que estavam do lado oposto do espectro político. Mas reafirmo a minha incapacidade para debater profundamente todas as possibilidades abertas por este campo de ideias, e a sua adequação a contextos específicos ou genéricos da experiência humana.
Talvez estejam condenadas a serem o Papão, que mete as crianças na ordem.
Mas às vezes parece que, se não for o medo do Papão, as crianças recusam a sopa e não crescem.