20 outubro, 2009

Ideias e identidade

As declarações de José Saramago sobre as religiões, os seus livros sagrados e a Bíblia em particular, despoletaram reacções vivas por esta blogosfera fora. (Fera fora... gosto destas cacofonias).

Muitas no sentido de ele ter insultado os crentes, ou simplesmente ter dito um disparate ao caracterizar de forma considerada grosseira uma obra com a(s) dimensão(ões) da Bíblia, manifestando uma intolerância insustentável.

As afirmações dele não me chocam minimamente. Resumindo aquilo que pensei; ele fez a sua leitura parcial da Bíblia, como faz toda a gente que conclui coisas definitivas a partir dali. Porque o Livro dispara em tantas direcções que só mesmo uma leitura parcial permite ser conclusivo. Para viver segundo ele, ou para o condenar.
Nesse sentido, achei simplesmente que ele tinha as suas razões, e aquela era tão somente a sua opinião (que de resto, subscrevo no sentido em que me pareceu dizê-la).

A outra coisa que foi clara é que alguns críticos do "politicamente correcto" provaram um pouco de incorrecção politica e não gostaram. O que é divertido e ajuda a perceber melhor as motivações por trás das suas opiniões.

Finalmente acho que a reflexão mais importante e aquilo que me devia levar a escrever sobre isto, é a das ideias enquanto identidade. Ou seja, até que ponto dizer que a Bíblia é um monte de disparates e um manual de maus costumes é uma opinião ou um insulto?

Só é um insulto se considerarmos que as ideias contidas na bíblia, ou a mera relação dos crentes com esta, fazem parte da sua identidade. E como tal há pessoas que ficam, passo a redundância, pessoalmente ofendidas.

Mas se as ideias são identidade, e a critica é ofensa e ofender é incorrecto, não leva isso a que seja incorrecto criticar ideias? E aí como ficamos? Vamos falar do quê? Do tempo?

16 outubro, 2009

Post contemplativo e paradoxal

À noite vejo muito mais longe do que de dia. Numa noite sem nuvens, posso ver até 2,25 milhões de anos-luz de distancia.
De dia, o mais que consigo são uns 150 milhões de quilómetros, em média.

13 outubro, 2009

Tontice

Dizer "tonteria"

02 outubro, 2009

A realidade

.. é um livro para colorir.

(quase de certeza que alguém já disse isto antes, mas juro que foi o que me ocorreu depois de ler um pequeno texto do João Távora no Corta-Fitas)

30 setembro, 2009

Memória do presente. (um post a dar para o longo).

Há muitos anos, quase noutra vida, terminei o liceu e fui para a universidade.
Corria então o ano de 1984.
Um colega de curso e amigo um dia chegou ao pé de mim e disse: "Tive um sonho, vamos fazer uma República". Devo ter pensado algo do género: "Porque não?" que é o género de coisas que penso.
A nossa motivação era simples. Tínhamos um certo fascínio pela tradição coimbrã, com o fado, as tertúlias, e a vida da Cidade, e a noção de que essa experiência apenas seria vivida em pleno se vivêssemos numa República.
Em pouco tempo arranjaram-se mais 5 interessados e uma casa onde cabíamos todos, e não custava tanto que se tornasse um peso nas nossas semanadas. No ano lectivo seguinte, já lá vivíamos todos.
O passo seguinte era oficializar a República. Sim, porque uma república está sujeita a um estatuto legal, publicado em Diário da República (a de todos). Rezava então que a legalização de uma república depende da aprovação do Conselho de Repúblicas, se estiver em actividade, e na ausência deste, dos órgãos associativos estudantis (a AAC) com o aval da reitoria.
Ao tempo, o Conselho de Repúblicas não reunia desde 1969, altura das crises académicas. Por isso fomos falar com a Associação Académica. "Com certeza, avancem!".
Audiência com o reitor? "Não... com o vice-reitor, sim". Uma formalidade certamente... Aqui começa a conversa do "ah e tal... não sei..." A reitoria aparentemente não se queria comprometer sem ter um parecer das outras republicas.
Como nem sim nem não antes pelo contrario, encolhemos os ombros e pensámos: que se lixe.... Colocámos a placa, "Real República dos Mimosos do Calhabé", um nome adequadamente parvo. Hasteámos a bandeira, e tentámos vender uns autocolantes para arranjar umas massas.
Resultado: por causa de nós, uns miúdos que só queriam brincar aos estudantes, o Conselho de Repúblicas reuniu pela primeira vez em 25 anos.
Cabe aqui dizer que ele não reunia, entre outras razões, porque aquela gente não se falava. Cada República de Coimbra era herdeira de uma qualquer estirpe de "esquerdismo", uns eram alinhados pelo PCP, outros do PS, outros Anarcas, outros trotskistas outros maoistas... era à escolha. Algumas até conviviam com outras, mas não passava dai.
Reúne então este Conselho, para nos dizer que "Não!"
"Não?"
"Não".
"Mas reunimos todas as condições previstas quer na lei quer no código da praxe!"
"Ah, mas nós agora arranjamos aqui umas regras e é preciso ser primeiro "casa comunitária" depois "Solar", e só finalmente "Republica". E Real República (como nós ousadamente nos tínhamos intitulado) isso só mediante mérito reconhecido pela academia... laá lá lá lá llá lá..."
Ok...
Originalmente, no século 19, Republica era qualquer casa em que estudantes viviam autonomamente. Normalmente chamava-se a "Republica de fulano", sendo "fulano" o líder natural e carismático do grupo, caso houvesse um. Eram coisas informais sem mais história do que a vida dos que a constituíam, enquanto a constituíam.
(Pessoalmente foi sempre nesse espírito que encarei o projecto, embora houvesse outros que tinham a esperança de estar a criar algo mais perene.)
Imbuídos desse espírito, e afastado que estava o apoio do conselho (ok.. acho que podíamos ser "casa comunitária".). Borrifámos-nos para eles todos.
"Se numa monarquia é rebelde fazer uma republica, já que estamos em república vamos fazer um Principado. Fazemos as nossas próprias regras."

Quanto às partes práticas, falámos com o director dos serviços sociais que nos deu uma equivalência a republica, no sentido de adquirir produtos frescos para cozinhar em casa (uma das condições de ser republica é comer as refeições em casa, versus na cantina).

E assim foi fundado o Principado, desta vez com o nome de Bu-Falos-Bilis (um nome ainda mais parvo), que havia um membro descontente com o nome inicial. E assim ficou, enquanto durou.

Porque é que me lembrei disto tudo hoje? Porque quando as instituições falham, ou se viram de costas para a realidade, concentradas que estão nas minúcias do poder, a vida das pessoas continua e o que nós queremos individual e colectivamente é muito mais importante.
Porque o poder, o real, está sempre na nossa vontade. Coisa que parece cair no esquecimento logo no dia a seguir às eleições.
Aproveito para mandar um abraço para o José Pedro, para o Miguel, para o José Carlos, para o "Mosca", para o Pina, para o José Paulo, para o Pedro Ivo e para o "Grego" , que não me lêem, mas que comigo viveram esta história. E já agora para o João Vasco, para o "Javali", para o Zé Nuno e o "Garrano" que por lá passaram e marcaram.