15 julho, 2009

Da necessidade de haver "governos".

Robin Dunbar, um antropólogo e biólogo inglês publicou há anos o estudo CO-EVOLUTION OF NEOCORTEX SIZE, GROUP SIZE AND LANGUAGE IN HUMANS . Neste estudo, (como o título sugere) fez de uma extrapolação da relação verificada entre o tamanho do neo—cortex e o tamanho dos grupos sociais dos primatas, para as sociedades humanas. O número encontrado foi 150. Consultando os dados disponíveis de censos de sociedades humanas caçadoras-recolectoras, o número foi considerado consistente. Para uma análise mais extensa aconselho o link acima.

Este número traduz a quantidade de relações não mediadas, interpessoais, que uma pessoa consegue manter, em média. Assim, uma sociedade sem hierarquias ou autoridades ou outros mecanismos de controlo, estará funcionalmente limitada a esta quantidade de pessoas. Para lá disso (com a ausência de outros factores) deixa de haver coesão social.

Os teóricos das organizações, que estudam as estruturas empresariais, por exemplo, também encontraram este número aproximado para o tamanho máximo que não carece de posições intermédias de controlo para garantir um fluxo eficiente da informação e a devida alocação de responsabilidades.

Aqui há uns tempos, o autor do Afilhado questionava-se da necessidade de haver um "governo" ou "estado".

Creio que é algo inerente à nossa deslocação de clãs familiares para sociedades complexas.
Nas relações interpessoais existem mecanismos de controlo diversos: reputação, honra, vingança, confiança, amizade, ira, compaixão, sentido de justiça, etc. etc.
Na verdade, muitas das nossas emoções, sobretudo as mais incontroláveis, são hoje vistas em grande parte como mecanismos de "certificação" das nossa intenções ou apreciação de qualquer situação.
Por exemplo, se dissermos "Estou chateado com o que fizeste" é uma coisa. Se essa frase for acompanhada de uma alteração de voz, de um olhar fulminante, de um sobrolho carregado e de todos os outros pequenos sinais de "estou pronto para confirmar que estou chateado, se tiveres dúvidas", torna-se muito mais veemente.

Uma sociedade complexa, onde não conhecemos todos os intervenientes de que efectivamente dependemos, apenas pode existir com instituições de mediação, que de alguma forma suprimam a ausência dos mecanismos de controlo interpessoais acima referidos. Não serão necessariamente instituições políticas ou sequer democráticas. As religiões e as tiranias podem ser eficazes instrumentos de controlo e mediação, não preciso de explicar porquê.

Mas felizmente há formas mais benignas de nos organizarmos.

13 julho, 2009

As teias da filosofia moral

Apesar de andar pouco produtivo aqui no Designorado, nunca deixei de dedicar atenção e deixar comentários nos diversos blogues que sigo. Recentemente participei numa discussão sobre Eutanásia no blogue “O afilhado”.

No meio da discussão ficou claro que o Tiago Moreira Ramalho entende que não temos nenhuma obrigação de ajudar os outros. Teremos a obrigação de não lhe fazer mal, que é a moral liberal da não coacção, mas não temos a obrigação de fazer seja o que for pelos outros (a não ser que um contrato prévio a isso nos obrigue). Pecados por omissão é coisa que não existe.

Usando as palavras do Tiago :
“É verdade que ajudar os outros é algo de louvável, ainda assim não se pode cunhar como imoral a não-ajuda. Por exemplo, eu tenho plena noção que há imensa gente a morrer à minha volta, sem que faça propriamente algo de substancial para minorar o problema.”

Para rebater este ponto vou fazer apelo a um grande filósofo moral de seu nome Benjamin Parker. São-lhe atribuídas as palavras: “With great power must come great responsibility”

O que para mim encerra o busílis da questão. É quando temos o poder de fazer o bem ou mal que fazemos decisões morais. As pessoas que o Tiago não pode ajudar, não o chamam a tomar nenhuma decisão, porque o seu poder sobre o destino delas é virtualmente nulo, por estar diluído com o resto da sociedade. (Daqui também se podem tomar ilações sobre responsabilidade colectiva, mas fica para outras núpcias).

Num exemplo discutido, há um caminhante no meio de uma estrada de montanha que tem um azar e parte uma perna. Precisa de ajuda. Segundo o Tiago se alguém passa e o ignora, não está a ser imoral. Mas acontece que nesse momento essa pessoa que passa tem o poder de ajudar. E com o poder, vem a proporcional responsabilidade.

10 julho, 2009

Como é que se pode falar de uma coisa

para a qual não se quer chamar a atenção?

09 julho, 2009

Eu, no fundo

...sou um sentimentalão.

Lembram-se de ver Nick and Bobbi Ercoline?

06 julho, 2009

Indecision 2008

Por cá não se deu muito por isso, mas só recentemente foram homologados os ultimos resultados das eleições americanas. Assim, foi eleito o candidato democrata ao Senado, pelo Minnesota. Al Franken de seu nome, formado em Harvard, cum laude, em Ciência Política.
É também o protagonista deste video.

05 julho, 2009

Há uma razão para The Wire ser a melhor série de sempre.

The Charles Dickens of Today's America.

Parte 1


Parte 2

02 julho, 2009

O Colapso da Classe Média Americana.

Elisabeth Warren é professora de direito comercial em Harvard, e actualmente a presidente da comissão de fiscalização do TARP (o programa de ajuda aos bancos americanos).
Nesta palestra de 2007 traça um retrato claríssimo do que aconteceu às familias americanas nos ultimos 40 anos. Em geral os dados comparativos são entre 1970 e 2005.



Alguns dados interessantes:
Em 1970 as familias americanas confiavam que uma educação de liceu era o suficiente para integrar a classe média.
Hoje acreditam que é preciso um curso superior.
(os que discordam são inferiores em número aos que acreditam que a ida do homem à lua foi uma encenação)
O corolário disto é que em 1970, para fazer parte da classe média bastava ser um cidadão americano. A educação gratuita dos 12 anos de liceu bastava.
Hoje para fazer parte da classe média é preciso pagar. E bem.
Numa adenda, hoje recomenda-se que esse caminho de sucesso comece antes da escola, na pre-escola. Resultado: os dois primeiros anos de educação, na área de Chicago, custam tanto como dois anos na universidade.

A palestra desmonta o mito de que foi o excesso de consumismo que levou as familias à falência. As despesas com bens de consumo pouco mudaram em 40 anos, no essencial. As grandes diferenças colocam-se nos custos das casas e nos custos da saúde. Bens que as familias têm muito menos flexibilidade para influenciar. (Pode-se cortar nas idas ao cinema, ou ao restaurante, na roupa ou nos DVDs, mas na saude e na casa?)

Hoje em dia, nos EUA, há mais crianças em familias em risco de falência do que em risco de divórcio. E por aí fora...

É um retrato americano, é certo. Mas o ponto de partida é familiar: porque é que dantes uma familia conseguia viver bem com um ordenado, e hoje em dia mal consegue viver com dois? Muitas das respostas que estão ali, talvez se apliquem cá, também.