Recentemente fiquei a conhecer a história dos Moriori. Os Moriori eram - acho que podemos falar deles no passado porque os seus descendentes já se misturaram e diluíram com outra etnias – os habitantes das ilhas Chatham, ali umas centenas de quilómetros a sudeste da Nova Zelândia.
Os Moriori eram descendentes dos primeiros polinésios que povoaram aquela região. Quando chegaram os colonos encontraram uma ilha muito mais fria e pobre em recursos do que aquelas de onde vieram e portanto tornavam inviável a sua agricultura tropical. Voltaram por isso a uma vida de caçadores recolectores. A população rondava os 2000.
Inicialmente levavam consigo os costumes próprios das populações agrícolas, fortemente territoriais, e prontas a lutar pelo seu pedaço de terra. A permanentes lutas ameaçavam aniquilar os Moriori. Um dos seus reis, antevendo o futuro, ou a ausência dele, decretou que todos os conflitos fossem decididos em confrontos pessoais, que terminavam ao primeiro derramamento de sangue ou, idealmente, que as disputas fossem resolvidas em conselho, conversando sobre o assunto. Eventualmente os Moriori abandonaram todo e qualquer acto de violência.
Em 1791, as ilhas Chatham foram descobertas pelo barco do mesmo nome, e passaram a ser base para baleeiros e caçadores de focas. As doenças trazidas pelos ocidentais mataram 10% da população Moriori, e alem disso aqueles desrespeitaram os costume Moriori de preservar as áreas e épocas reprodução dos animais de que dependiam.
Mas pior, os Maori da Nova Zelândia vieram depois, para conquistar e escravizar. Os pacíficos Moriori foram basicamente exterminados se oferecer resistência. Os poucos sobreviventes relataram a perplexidade perante tal violência, e como se tinham reunido para discutir e propor alguma forma se acordo com os invasores, que não quiseram saber. Os Moriori agiram segundo os seus costumes, e os Maori também.
Esta historia trágica ilustra por um lado como muitas das diferenças culturais estão directamente ligadas à ecologia humana. Diversas condições geográficas e climáticas induzem costumes diversos que permitem a sobrevivência das populações. Uma religião originária no árido Médio Oriente tem certamente por trás uma experiência humana bem diferente da originada numa planície permanente verde e fértil.
Por outro lado, e foi isso que me fez reflectir sobre ela, a história dos Moriori lembra-nos o que é preciso para fazer num mundo superpovoado, em que os recursos são limitados. Confrontados com a extinção, adoptaram regras de arbitragem pacífica de conflitos, respeito escrupuloso pelo ambiente e gestão de recursos naturais e ainda controlo do crescimento populacional, no caso pela castração de crianças do sexo masculino, mas para isso temos outras soluções.
Com isto, foram dois posts seguidos a falar de castração... Em minha defesa tenho a dizer que escrevi o post anterior já sob influencia desta história.
29 novembro, 2006
27 novembro, 2006
Dois por cento (parte II)
Como avancei no post anterior, fiquei a saber que há uma disciplina chamada Neuroeconomia, um ramo da Economia Comportamental. Estas disciplinas, de uma forma geral, tentam perceber o que as pessoas estão a pensar, e sentir, quando tomam parte em actos "económicos" sejam transacções comerciais, apostas, doações... etc.
No caso da Neuroeconomia tenta-se perceber o que se passa no cérebro nessas circunstâncias através de Imagiologia cerebral.
Uma das conclusões a que se chegou, foi que quando se estabelecem relações de interdependência e confiança entre parceiros económicos — por exemplo um indivíduo empresta dinheiro a outro para investir — o cérebro segrega uma substância chamada Ocitacina, que está associada às relações entre progenitores e crias, ou no caso humano também à ligação entre pares.
Ou seja, o mesmo mecanismo, ou pelo menos parte dele, que acciona e mantém ligações de longa duração, manifesta-se nas transacções económicas. Económico aqui é usado de forma abrangente, inclui trocas e partilhas de propriedade, alimento, abrigo etc. Esta ligação garante de alguma forma um princípio de reciprocidade. Em geral, as pessoas sentem-se obrigadas a retribuir, a recompensar e até a dar simplesmente, sem nenhuma outra recompensa que o bem que isso as faz sentir.
Maiores níveis da hormona, estão associados a maiores níveis de confiança no outro.
Acontece que 2% das pessoas testadas no Laboratório de Neuroeconomia do professor Paul J. Zak são puros não-cooperadores. Não manifestam a menor intenção de reciprocar, nem se preocupam com as consequências para os outros. No dito laboratório estes indivíduos foram intitulados “bastards” que traduzi livremente por filhos da puta (FDP), já que é isso que eles são. Para efeitos práticos, sociopatas.
Estes individuos manifestam deficiencias nos mecanismos de produção e regulação da Ocitacina.
2% é o suficiente para desestabilizar um sistema. Um agente bem intencionado, uma pessoa normal, depois de experimentar a interacção com um FDP, vai abordar de forma mais cautelosa a próxima interacção. Poderá inclusive optar por racionalmente ter uma atitude FDP, mesmo estando sujeito às penalidades emocionais que lhe estão associadas em pessoas normais. O que dá o efeito de os actos FDP serem mais generalizados que os indivíduos FDP.
É de novo o dilema do prisioneiro a funcionar.
Como lidar com estes 2% de FDP? Para começar podíamos deixar de os apontar como exemplo de sucesso e modelos para os nossos filhos.
Se isso não resultasse, podiam ser castrados. Mas era mais chato.
No caso da Neuroeconomia tenta-se perceber o que se passa no cérebro nessas circunstâncias através de Imagiologia cerebral.
Uma das conclusões a que se chegou, foi que quando se estabelecem relações de interdependência e confiança entre parceiros económicos — por exemplo um indivíduo empresta dinheiro a outro para investir — o cérebro segrega uma substância chamada Ocitacina, que está associada às relações entre progenitores e crias, ou no caso humano também à ligação entre pares.
Ou seja, o mesmo mecanismo, ou pelo menos parte dele, que acciona e mantém ligações de longa duração, manifesta-se nas transacções económicas. Económico aqui é usado de forma abrangente, inclui trocas e partilhas de propriedade, alimento, abrigo etc. Esta ligação garante de alguma forma um princípio de reciprocidade. Em geral, as pessoas sentem-se obrigadas a retribuir, a recompensar e até a dar simplesmente, sem nenhuma outra recompensa que o bem que isso as faz sentir.
Maiores níveis da hormona, estão associados a maiores níveis de confiança no outro.
Acontece que 2% das pessoas testadas no Laboratório de Neuroeconomia do professor Paul J. Zak são puros não-cooperadores. Não manifestam a menor intenção de reciprocar, nem se preocupam com as consequências para os outros. No dito laboratório estes indivíduos foram intitulados “bastards” que traduzi livremente por filhos da puta (FDP), já que é isso que eles são. Para efeitos práticos, sociopatas.
Estes individuos manifestam deficiencias nos mecanismos de produção e regulação da Ocitacina.
2% é o suficiente para desestabilizar um sistema. Um agente bem intencionado, uma pessoa normal, depois de experimentar a interacção com um FDP, vai abordar de forma mais cautelosa a próxima interacção. Poderá inclusive optar por racionalmente ter uma atitude FDP, mesmo estando sujeito às penalidades emocionais que lhe estão associadas em pessoas normais. O que dá o efeito de os actos FDP serem mais generalizados que os indivíduos FDP.
É de novo o dilema do prisioneiro a funcionar.
Como lidar com estes 2% de FDP? Para começar podíamos deixar de os apontar como exemplo de sucesso e modelos para os nossos filhos.
Se isso não resultasse, podiam ser castrados. Mas era mais chato.
24 novembro, 2006
Dois por cento.
Hoje fiquei a saber que 2% é a percentagem de filhos da puta numa população média. Vou dedicar os próximos dias a tentar perceber porque é que eles parecem ser muitos mais. Depois explico do que estou a falar.
This day in History
O Designorado não podia ignorar esta data.
Em 1859 foi publicada a primeira edição de
"The Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favored Races in the Struggle for Life."
Uma edição de 1250 exemplares que se esgotou no primeiro dia. Ou tinham uma grande máquina de marketing por trás ou, vai-se a ver, o livro era mesmo interessante. Ou então foi comprado por opositores alertados que tentaram açambarcar todos os volumes...
Em 1859 foi publicada a primeira edição de
"The Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favored Races in the Struggle for Life."
Uma edição de 1250 exemplares que se esgotou no primeiro dia. Ou tinham uma grande máquina de marketing por trás ou, vai-se a ver, o livro era mesmo interessante. Ou então foi comprado por opositores alertados que tentaram açambarcar todos os volumes...
19 novembro, 2006
Com todo o respeito, discordo.
Ainda há pouco tempo, alguém começava uma argumentação para contrariar uma opinião minha desta forma tão clássica: "Respeito todas as opiniões, mas..."
É uma magnífica treta.
Porque é que alguém há-de respeitar todas as opiniões? Sobretudo quando claramente é contra elas? "Há pessoas que são da opinião que as mulheres servem para levar pancada. Estão no seu direito, mas discordo". Faz algum sentido?
Suponho que é em nome da tolerância, do diálogo frutuoso. Afinal, a maior parte das pessoas e a maior parte das opiniões não são tão extremas como o exemplo acima. Não se ganha nada em hostilizar, ou em chamar o outro de energúmeno, só porque acha que clementinas são melhores que marroquinas... ou só porque acha que uma economia "lassez faire" é melhor que uma outra mais controlada. Ou será que ganha?
Acho que é preferível não respeitar opinião nenhuma. A começar pelas nossas.
Se eu descobrir que estava errado, que respeito vou ter por quem respeitou o meu erro?
A não ser que na verdade não respeitem, e seja só uma questão de etiqueta.
Nesse caso, poupem-me.
É uma magnífica treta.
Porque é que alguém há-de respeitar todas as opiniões? Sobretudo quando claramente é contra elas? "Há pessoas que são da opinião que as mulheres servem para levar pancada. Estão no seu direito, mas discordo". Faz algum sentido?
Suponho que é em nome da tolerância, do diálogo frutuoso. Afinal, a maior parte das pessoas e a maior parte das opiniões não são tão extremas como o exemplo acima. Não se ganha nada em hostilizar, ou em chamar o outro de energúmeno, só porque acha que clementinas são melhores que marroquinas... ou só porque acha que uma economia "lassez faire" é melhor que uma outra mais controlada. Ou será que ganha?
Acho que é preferível não respeitar opinião nenhuma. A começar pelas nossas.
Se eu descobrir que estava errado, que respeito vou ter por quem respeitou o meu erro?
A não ser que na verdade não respeitem, e seja só uma questão de etiqueta.
Nesse caso, poupem-me.
17 novembro, 2006
Cara nova...
Só a ver como é. Entretanto, é mesmo aqui. Isto agora tem outras potencialidades, por isso vamos lá a ver como fica...
..... para já foram-se os links....
já lá estão alguns mas não todos, certamente...
..... para já foram-se os links....
já lá estão alguns mas não todos, certamente...
16 novembro, 2006
Donos da Chuva
Aqui há uns tempos estava a ter uma conversa da treta com um amigo, e começámos a falar dos direitos de propriedade. Sem nenhum de nós ser jurista, considerámos na altura o absurdo de alguém reclamar propriedade por um pedaço de terra.
Afinal, aquela terra, aquele lugar, está ali há milhões de anos. A que título alguém clama como propriedade sua algo cuja existência tanto o transcende?
Claro que esta questão pode ser traçada até ao território de caça dos animais. Também eles os defendem como seus, com a própria vida, porque deles depende a sua vida. Ainda assim, se excluirmos o uso da força, pouco parece legitimar a posse de recursos naturais.
Os exemplos das aldeias comunitárias que partilham pastos, terrenos de cultivos e água, de forma sustentável, não são curiosidades etnográficas, eram a regra na idade média, tanto na Europa do norte como do sul.
Claro que vinha um senhor feudal, partia umas cabeças e reclamava a terra como “sua”. Mas só era “sua” até outro senhor feudal vir e por sua vez partir a cabeça do primeiro.
Essa posse reclamada da terra, apenas servia para carregar quem de facto pertencia àquela terra com o peso de um imposto, lucro, muito para além do que a subsistência exige, e afrontando a sustentabilidade. Além de pagar pelo seu bem estar, o trabalho dos aldeões também tinha que custear os palácios, os exércitos, as extravagâncias e todo o resto.
Não creio que seja abusivo extrapolar da aldeia medieval para a nossa aldeia global.
Há quem defenda que a única forma de preservar recursos naturais é torná-lo posse de alguém que lhes atribui um valor e deles tira rendimento. O mercado é a solução para tudo.
Talvez por isso, lá por 1996, o Banco Mundial condicionou o apoio financeiro ao abastecimento de água da municipalidade de Cochabamba, a terceira cidade da Bolívia, à sua privatização. Relutantemente, mas face à impossibilidade de conseguir outros recursos, o abastecimento de água por 40 anos foi atribuído por 20 000 dólares à Bechtel, uma multinacional com base na Califórnia. Quase de um momento para o outro, famílias que ganhavam 100 dólares por mês viram-se confrontadas com facturas de água de 30. Isto levou o povo para a rua, seguido da policia, do gás lacrimogéneo, e finalmente de 6 mortos e perto de 200 feridos, nas semanas seguintes. Eventualmente, o governo recuou, e a multinacional também.
Depois, eventualmente, o ditador apanhou cancro, e houve eleições e ganhou Evo Morales. Mas isso é outra história.
Quanto a Cochabamba, para se ter uma ideia do que estava em causa, o contrato de 40 anos previa lucros de 16%/ano, e proibia os cidadãos de construir tanques e reservatórios para acumular água da chuva.
Afinal, aquela terra, aquele lugar, está ali há milhões de anos. A que título alguém clama como propriedade sua algo cuja existência tanto o transcende?
Claro que esta questão pode ser traçada até ao território de caça dos animais. Também eles os defendem como seus, com a própria vida, porque deles depende a sua vida. Ainda assim, se excluirmos o uso da força, pouco parece legitimar a posse de recursos naturais.
Os exemplos das aldeias comunitárias que partilham pastos, terrenos de cultivos e água, de forma sustentável, não são curiosidades etnográficas, eram a regra na idade média, tanto na Europa do norte como do sul.
Claro que vinha um senhor feudal, partia umas cabeças e reclamava a terra como “sua”. Mas só era “sua” até outro senhor feudal vir e por sua vez partir a cabeça do primeiro.
Essa posse reclamada da terra, apenas servia para carregar quem de facto pertencia àquela terra com o peso de um imposto, lucro, muito para além do que a subsistência exige, e afrontando a sustentabilidade. Além de pagar pelo seu bem estar, o trabalho dos aldeões também tinha que custear os palácios, os exércitos, as extravagâncias e todo o resto.
Não creio que seja abusivo extrapolar da aldeia medieval para a nossa aldeia global.
Há quem defenda que a única forma de preservar recursos naturais é torná-lo posse de alguém que lhes atribui um valor e deles tira rendimento. O mercado é a solução para tudo.
Talvez por isso, lá por 1996, o Banco Mundial condicionou o apoio financeiro ao abastecimento de água da municipalidade de Cochabamba, a terceira cidade da Bolívia, à sua privatização. Relutantemente, mas face à impossibilidade de conseguir outros recursos, o abastecimento de água por 40 anos foi atribuído por 20 000 dólares à Bechtel, uma multinacional com base na Califórnia. Quase de um momento para o outro, famílias que ganhavam 100 dólares por mês viram-se confrontadas com facturas de água de 30. Isto levou o povo para a rua, seguido da policia, do gás lacrimogéneo, e finalmente de 6 mortos e perto de 200 feridos, nas semanas seguintes. Eventualmente, o governo recuou, e a multinacional também.
Depois, eventualmente, o ditador apanhou cancro, e houve eleições e ganhou Evo Morales. Mas isso é outra história.
Quanto a Cochabamba, para se ter uma ideia do que estava em causa, o contrato de 40 anos previa lucros de 16%/ano, e proibia os cidadãos de construir tanques e reservatórios para acumular água da chuva.
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