17 novembro, 2006
Cara nova...
..... para já foram-se os links....
já lá estão alguns mas não todos, certamente...
16 novembro, 2006
Donos da Chuva
Afinal, aquela terra, aquele lugar, está ali há milhões de anos. A que título alguém clama como propriedade sua algo cuja existência tanto o transcende?
Claro que esta questão pode ser traçada até ao território de caça dos animais. Também eles os defendem como seus, com a própria vida, porque deles depende a sua vida. Ainda assim, se excluirmos o uso da força, pouco parece legitimar a posse de recursos naturais.
Os exemplos das aldeias comunitárias que partilham pastos, terrenos de cultivos e água, de forma sustentável, não são curiosidades etnográficas, eram a regra na idade média, tanto na Europa do norte como do sul.
Claro que vinha um senhor feudal, partia umas cabeças e reclamava a terra como “sua”. Mas só era “sua” até outro senhor feudal vir e por sua vez partir a cabeça do primeiro.
Essa posse reclamada da terra, apenas servia para carregar quem de facto pertencia àquela terra com o peso de um imposto, lucro, muito para além do que a subsistência exige, e afrontando a sustentabilidade. Além de pagar pelo seu bem estar, o trabalho dos aldeões também tinha que custear os palácios, os exércitos, as extravagâncias e todo o resto.
Não creio que seja abusivo extrapolar da aldeia medieval para a nossa aldeia global.
Há quem defenda que a única forma de preservar recursos naturais é torná-lo posse de alguém que lhes atribui um valor e deles tira rendimento. O mercado é a solução para tudo.
Talvez por isso, lá por 1996, o Banco Mundial condicionou o apoio financeiro ao abastecimento de água da municipalidade de Cochabamba, a terceira cidade da Bolívia, à sua privatização. Relutantemente, mas face à impossibilidade de conseguir outros recursos, o abastecimento de água por 40 anos foi atribuído por 20 000 dólares à Bechtel, uma multinacional com base na Califórnia. Quase de um momento para o outro, famílias que ganhavam 100 dólares por mês viram-se confrontadas com facturas de água de 30. Isto levou o povo para a rua, seguido da policia, do gás lacrimogéneo, e finalmente de 6 mortos e perto de 200 feridos, nas semanas seguintes. Eventualmente, o governo recuou, e a multinacional também.
Depois, eventualmente, o ditador apanhou cancro, e houve eleições e ganhou Evo Morales. Mas isso é outra história.
Quanto a Cochabamba, para se ter uma ideia do que estava em causa, o contrato de 40 anos previa lucros de 16%/ano, e proibia os cidadãos de construir tanques e reservatórios para acumular água da chuva.
13 novembro, 2006
Férias na idade média
08 novembro, 2006
A liberdade
Uma das maiores falácias dos chamados liberais, ou neo-liberais, conforme quem os chame, é a forma como se apropriam da Liberdade. A Liberdade é para eles um valor absoluto e como tal é inviolável. O que eles não dizem sempre é que quando falam de liberdade apenas estão a pensar em liberdade individual.
Qualquer pessoa sabe que um individuo infinitamente livre ou é Deus ou é um sociopata. Isso desde logo inviabiliza a Liberdade Individual como valor absoluto.
Assim, quando pensei na resposta a dar àquela questão, a primeira reacção foi rejeitar a Liberdade como valor maior, trocando-o por outro como por exemplo a Felicidade ou a Dignidade (que não existem sem doses mínimas de liberdade, mas que se não forem metas, de que serve a mesma? A propósito, li naquele blogue que o liberalismo defendia a liberdade dos mercados mesmo que isso significasse a miséria para todos...vá-se lá perceber o sentido disto).
Mas não quis abdicar da Liberdade. As pessoas de bem não devem abdicar dela. Pelo contrário, acredito que valorizo mais a Liberdade que os liberais. Tanto que acredito que numa sociedade quanto mais Liberdade houver, melhor. Acredito que uma sociedade é melhor quando a liberdade somada dos seus cidadãos é maior.
E é por isso que acredito na redistribuição de riqueza. Se a um multimilionário tirarmos um milhão para distribuir por uns milhares de destituídos, a liberdade do primeiro fica virtualmente intacta, enquanto a liberdade dos que nada tinham foi exponencialmente multiplicada. No total aumentámos a liberdade de todos.
Além disso é bem provável que o multimilionário fique mais feliz.
07 novembro, 2006
Desculpas de mau pagador
Vou quebrar o que é o tom dominante deste blog e introduzir uma nota pessoal, a propósito de algo que não ocorreu este fim-de-semana que passou. Uma das razões porque o faço é porque tem tudo que ver com o post anterior, mesmo que não seja logo óbvio.
Porque achei que não ia valer a pena. Porque iria estar a fazer horas até às onze, depois de jantar sozinho, porque a distância para o local da festa é daquelas que são suficientemente curtas para irritar um taxista, mas longas o suficiente para não apetecer fazer a pé num dia de chuva, porque já sei que nestas festas acabo por me apagar no meio do ruído e do fumo e estar lá ou não é a mesma coisa…. Etc, etc, etc,...
Passar um bocado a ouvir boa música, potencialmente no meio de gente interessante e eventualmente cruzar-me com a futura mãe dos meus filhos, tudo coisas que uma perspectiva optimista poderia contrapor, não ocorreram ou não conseguiram ter peso.
Isso também funciona para trás, quando usamos a memória para reconstituir as nossas emoções numa situação passada, nessa altura, preenchemos os buracos da memória com pedacinhos de presente. Mas, quando o assunto é o futuro, tudo é um buraco.
Por isso, naturalmente, depois de um dia cinzento em que até me sentia mais só do que o costume, em que não tinha visto nenhum filme que me estimulasse, ou lido qualquer coisa que me pusesse bem disposto, ou falado com alguém que me alegrasse, apenas pude antecipar mais solidão e vazio.
E a prova mesquinha de que isto é capaz de ter sido mesmo assim, é que depois de completar umas voltas bem sucedidas num jogo de corridas de carros manhoso com que me tenho entretido, por momentos até me pareceu boa ideia, e encarei a possibilidade de ir à festa com alegria e optimismo. Mas foi passageiro...
06 novembro, 2006
A Bolsa explicada às crianças
Todos os dias, antes de sair de casa, o mais certo é levar com uma ligação da SIC notícias à Reuters, onde um presumível Jornalista e Entendido no assunto dos dá conta das flutuações dos mercados, e dos factos mais relevantes que os influenciam, ou assim ele diz.
Um dos índices que volta e meia são referidos é o “índice de confiança dos consumidores”. Todos os trimestres, ao que parece há umas pessoas que vão perguntar aos consumidores se se sentem confiantes. Nunca percebi muito bem que confiança era essa, presumo que seja qualquer coisa do género “acha que vai gastar muito dinheiro no próximo trimestre? Estou confiante que sim.” ou “Não”.
Ainda há uns tempos me lembro de ouvir no mesmo bloco de notícias que o índice dos consumidores andava em baixo, e que a companhia “Deutch qualquer coisa” iria despedir 30.000 cabeças, porque o índice dos consumidores estava em baixo.
Bem... se 30 000 consumidores se viram sem emprego imaginem o que isso fez aos níveis de confiança do trimestre seguinte.
Aliás, o simples anúncio de uma baixa de confiança dos consumidores parece ser suficiente para baixar a confiança de toda a gente.
E depois há aquela coisa dos mercados em alta e baixa. De uma forma geral, do que dá para perceber, um leigo deve assumir que uma bolsa em alta é bom, e que em baixa é pior. Por exemplo: ainda recentemente o famoso Dow Jones voltou aos níveis record de 2000. “Bravo!!! Ora Retoma lá! É do camandro!..”
Mas fazendo as contas e descontando inflações, e tal, chega-se à conclusão de que ainda está longe disso. Mas mais importante, num clima de alta dos combustíveis, estagnação da produtividade e geral arrefecimento dos mercados, uma subida de cotações significa simplesmente que os accionistas vão receber lucros tirados directamente do valor dos salários. E isso não deve ser nada bom para a confiança dos consumidores.