11 outubro, 2006

Nós ou as cianobactérias.

Muito daquilo sobre que tenho escrito são coisas que se descobriram, investigaram e desenvolveram tendo por base fundadora o trabalho de Darwin.

A teoria da evolução trouxe uma clarividência e uma ordem à compreensão da vida que eram impossíveis de estabelecer antes dela. Normalmente os poucos, mas muito vocais, que se lhe opõem pouco mais fazem do que demonstrar a sua ignorância sobre o assunto em particular e sobre como se faz ciência em geral. A causa verdadeira é a defesa irracional e intransigente de uma ideia religiosa, que acaba mais prejudicada porque ridicularizada.

Mas mais mal ao bom nome de Darwin, na minha opinião, fazem aqueles que dizendo abraçar essas ideias, delas abusam.

Ainda recentemente li num outro blogue alguém colocar a seguinte questão, mais coisa menos coisa: "Não percebo porque é que aqueles que se opõem ao Criacionismo são os primeiros a levantar a voz contra o Darwinismo social."

Eu não sou um perito em filosofia politica, ou em qualquer outra coisa, mas esta afirmação encerra tantos equívocos que se me arrepiou logo a espinha toda.

Primeiro confunde desde logo uma posição estritamente ditada pelo entendimento e respeito pelo método científico com qualquer outra ditada por uma convicção ideológica.

Depois, talvez não claro na afirmação em si, mas fácil de ver no contexto da discussão o pressuposto de que Criacionismo e Darwinismo Social estão "à direita" e Evolução e Oposição ao darwinismo social (ou às nuances neo-liberais com tal carácter) estão à esquerda.
Uma muito pouco saudável mistura de alhos e bugalhos, teologia, política e ciência...

Outro equívoco é a chamada falácia Naturalista... A assumpção de que Natural é sinónimo de Bom. Que de resto é, creio eu, um dos fundamentos e erros básicos do Darwinismo Social enquanto doutrina. Se a natureza é assim, é assim que devemos ser.

E mesmo esta visão, errada em si mesma, encerra um outro equívoco sobre a Evolução, muito comum no século XIX e em quem tem um conhecimento demasiado superficial da ciência: a de que a Evolução é linear, direccionada, que o que vem depois é sempre melhor do que o que vem antes.

A selecção natural escolhe de facto os mais aptos a reproduzir-se e numa dada população são eles que dominam e prosperam (eles os genes). Mas essa aptidão é sempre Contextual. É função directa do meio ambiente. Hoje sobrevivem os que resistem ao calor, muda o clima e passam a sobreviver os que resistem ao frio, e assim por aí adiante.

Nesse sentido, seremos mais complexos, mas não somos mais "Evoluídos" do que uma cianobactéria que é basicamente igual há 4000 milhões de anos. Porque estamos ambos aqui, nós e ela. E ela pelo menos já deu provas de muito mais endurance...

O que a teoria da evolução aplicada às sociedades e culturas nos diz, é que as ideias ao agir como os novos replicadores egoistas- os famosos Memes-, podem determinar resultados biológicos que favorecem a sua sobrevivência mas não necessariamente a de quem as promove. E isso, sim, explica elegantemente a sobrevivência de muitas formas de ignorância.

08 outubro, 2006

A traça e a luz

Com os devidos cumprimentos ao Misantropo Enjaulado que recentemente teve um tópico com o mesmo título, ou semelhante, aqui ficam algumas ideias para acabar de vez com a felicidade.
Com o tópico. Neste blogue. Pelo menos, de vez por uns tempos.

Por aqui abaixo já percorri algumas das causas apontadas para a incongruente escalada de depressões, insatisfações e desesperos destas sociedades em que vivemos. Onde temos cada vez mais e menos nos parece satisfazer. Algumas são sociológicas outras psicológicas, condicionadas pelas primeiras.

Agora vou esplanar as pistas apontadas pelo psicólogo David Buss. É um psicólogo evolucionista que se especializou nas relações entre os sexos.

A psicologia evolucionista, para quem não estiver a par, é uma disciplina que procura identificar as características da mente humana que são adaptações evolutivas. Traços que ficaram por sofrer selecção positiva em determinada fase da história evolutiva da Humanidade, 99% da qual foi passada em sociedades de caçadores-recolectores.
Um exemplo simples: os traços que achamos atraentes estão correlacionados com, nos homens, status, poder e dominância, e nas mulheres com fertilidade, juventude e saúde. Isto são generalizações, é certo, mas confirmadas pela experimentação.

O primeiro factor que ele aponta é então a substancial diferença entre o ambiente primitivo e o actual.

Numa sociedade tribal de 50 a 200 individuos a escolha de parceiros estava limitada uma ou duas dezenas. Na sociedade actual os potenciais parceiros são muitos mais e ainda os comparamos a todos com o bombardeamento mediático de exemplares perfeitos e altamente desejáveis.
Na sociedade tribal vivia-se em nucleos familiares extensos, actualmente vivemos em familias reduzidas, frequentemente isoladas entre outras familias anónimas.
Antes, podiamos contar com os nossos parentes para conseguir justiça e reparações por danos, agora temos que confiar em estruturas externas e frequentemente complicadas.
Ou seja estamos equipados para actuar com segurança numa certa escala, que a complexidade da vida moderna rebentou completamente.

Outro factor, são as adaptações que causam stress. São desenhadas para isso. Sentimos emoções negativas quando o nosso papel sexual é posto em causa, quando a nossa posição social é ameaçada, quando somos enganados por amigos etc etc. Há uma série de emoções que existem e sentimos com fortemente negativas porque foram determinantes na selecção dos nossos antepassados. Os que não as sentiram, ou que não as sentiram tão fortemente, não deixaram descendência.

O terceiro obstáculo à felicidade é o nosso desenho para a competição. A evolução actua sobre as diferenças, por isso o ganho de uns é a perda de outros. Os alemães têm a expressão "Schadenfreude" que designa mais ou menos o prazer que se tem na infelicidade dos outros. Será por isso que não resistimos a rir quando alguém cai no ridiculo, nem que seja na proverbial casca de banana? O maior duplo padrão não é o que existe entre homens e mulheres mas sim o que se cria entre nós e o resto da humanidade.

Outros factores por ele identificados foram já ilustrados no post sobre Felicidade Sintética. A nossa capacidade de nos adaptarmos a uma nova situação faz reduzir a longo prazo os efeitos do que pensávamos ser uma grande coisa. Um outro relacionado está na nossa avaliação afectiva de ganhos e perdas. Ficamos mais tristes por perder do que ficamos contentes por ganhar. Perder 100 é muito mais penoso do que ganhar 100 é agradável.

Acho que a pedra filosofal desta coisa toda está em usar a inteligência.
Da mesma forma que a traça foi seleccionada para ser atraida pela luz, presumivelmente a da lua, e acaba morta contra uma lampada, também muitos dos nossos traços ancestrais nos causam mais mal que bem se deixarmos.

Temos sobre a traça a vantagem de conseguir, munidos da informação suficiente, olhar para as nossa emoções e impulsos e perceber de onde vêm e onde nos levam.

Podemos restabelecer um pouco do ambiente primitivo dando mais valor à familia e amigos e estabelecendo mais profundos laços sociais.
Podemos reduzir o impacto da competição, apostando na cooperação. Isto faz-se, por exemplo, não colocando um prazo nas relações. Enquanto o futuro percebido for de interdependencia, a melhor estratégia é a de cooperação.
Podemos procurar deliberadamente as coisas que proporcionam felicidade, afinal também elas seleccionadas pela evolução: ajudar os parentes e amigos, viver saudavelmente, sentir intimidade, etc.

Afinal, porque há-de a nossa felicidade ser determinada pelo que fazia um Cro-Magnon ter mais filhos?

Neste ponto pelo menos há que dar ouvidos à personagem de Katherine Hepburn em "A Raínha Africana":
"Nature, Mr. Allnut, is what we are put in this world to rise above."

03 outubro, 2006

Dogma

“O dogma oficial das Sociedade Industriais Ocidentais é algo como isto: Se pretendemos maximizar o bem estar dos nossos cidadão, a forma de o fazer é maximizar a sua Liberdade Individual. A razão para isso é que Liberdade é em si Boa, Valiosa. Essencial à condição humana, e se as pessoas tiverem liberdade cada um de nós pode actuar por si mesmo, fazendo as coisas que maximizam o nosso bem estar, e ninguém decide por nós. A forma de Maximizar a Liberdade é Maximizar a capacidade de Escolha.
Quanto mais escolha tivermos, mais liberdade temos, e quanto mais liberdade temos, maior o nosso bem estar.”

É assim que Barry Schwartz, professor de Sociologia e autor de “The Paradox of Choice” começa uma palestra acontecida o ano passado em Oxford.

Esta ideia está tão enraizada em sociedades e algumas ideologias vigentes que poucos são os que se atrevem a contrariá-la. Mas como acontece frequentemente nestas coisas, os factos são do contra.

No post anterior já tinha abordade a nossa inabilidade em prever certas condições futuras. A nossa avaliação da Liberdade de escolha parece ser um desses exemplos, e certamente não o menos dramático.

O excesso de escolha provoca, antes de mais nada, uma espécie de paralisia. Um exemplo simples e clássico: uma demonstradora num supermercado exibe 25 variedades de compota, e oferece um vale de compras. Outra exibe 6 e também oferece o mesmo vale de compras. O segundo exemplo origina 10 vezes mais compras, em média. É muito mais fácil escolher.

Mas feita a escolha, despoletam-se diversos outros mecanismos.
Primeiro, uma desmesurada subida das expectativas. Se vamos escolher uma coisa entre 50, o mínimo que esperamos é a perfeição. O potencial de desilusão é exponencial.

Segundo, pagamos aquilo que os economistas chamam “Custo de Oportunidade”. As potenciais boas coisas que preterimos tornam-se espinhos e grãos de areia na satisfação da nossa escolha. Quanto mais oportunidades de escolha, maior o custo de oportunidade.

Finalmente, quando a escolha nos desilude, culpamo-nos a nós mesmos. Com tanto por onde escolher, só pode ter sido culpa nossa.

Isto é verdade para objectos, coisas que se compram e que proliferam nas nossas sociedades de consumo, mas também é verdade nas nossas vidas pessoais.

Schwartz dá o exemplo dos seus alunos de pós graduação que vivem atormentados com as possibilidades que se lhes deparam: casar, ter uma carreira, ter filhos. Que devem fazer? Ter uma carreira e depois filhos, casar e ter uma carreira, e os filhos vêm depois? Não casar? Ele lembra o tempo em que se casava o mais cedo possível, tinha-se filhos o mais cedo possível, e a única escolha que se tinha que fazer era “com quem?”

A liberdade é essencial. Uma pessoa sem escolhas, não pode ser pessoa, não pode realizar o seu potencial humano. Mas ter a Liberdade como valor absoluto não só gera conflitos e paradoxos, quando as liberdade individuais infinitas colidem umas com as outras, como contraria o fim ultimo da liberdade que é a felicidade do ser humano.

Este é um problema peculiar das nossas sociedades de afluência material, e um racional que permite defender a redistribuição da riqueza não com base numa noção de justiça que é sempre julgada como ideológica, mas com base numa noção de eficácia. Se a busca de felicidade é o nosso mote, sejamos coerentes.

28 setembro, 2006

Felicidade Sintética

Este foi um conceito novo que aprendi recentemente com o psicólogo Dan Gilbert. Ele distingue felicidade natural de felicidade sintética.
Apesar de instantaneamente torcermos o nariz à ideia, vale a pena perceber do que ele está a falar: Felicidade Natural é o que sentimos quando obtemos o que queremos, Felicidade Sintética é o que fazemos quando obtemos o que não queremos.
E o que fazemos nós? Adaptamo-nos, reconstruímos as nossas escalas de valores.


A isto os psicólogos chamam "impact bias" (ainda hei-de aprender a traduzir "bias" como deve ser, mas até lá paciência). As pessoas são muito más a prever as consequências dos diversos futuros possíveis. Sejam motivados pelas suas escolhas, seja eles fruto de circunstancias que não controlam.

Quantas vezes, depois de uma experiência de alguma forma traumática, que não esperávamos ou temíamos, olhando para trás dizemos: Foi a melhor coisa que me podia ter acontecido: ser despedido, abandonado pela pessoa amada, ficado em vez de ido... etc etc.

Alguns exemplos públicos roçam o extraordinário.
Um ex-condenado sai da prisão onde foi metido por um crime que não cometeu durante 37 anos: "Não lamento nada, foi uma experiência gloriosa."

Ou o antecessor de Ringo Starr: "Hoje sou muito mais feliz do que se tivesse ficado nos Beatles".

Ao fim de um ano, a mudança na felicidade de um vencedor da lotaria ou de uma vitima de acidente que fica paraplégica é idêntica, perto de nula. Custa a acreditar, mas é assim.

È uma espécie de sistema imunitário psicológico.

Claro que isto não significa que as coisas são iguais, que é igual partir uma perna ou ficar apaixonado. E no fim vai dar tudo ao mesmo.

Gilbert remete-nos para Adam Smith aqui traduzido por mim, com as devidas desculpas:

“A grande fonte de tristeza e desordem na vida humana parece estar em sobreavaliar a diferença entre uma situação permanente e outra. Algumas dessas situações sem dúvida merecem ser preferidas a outras, mas nenhuma delas merece ser procurada com tal paixão e ardor que nos leve a violar quer as regras da prudência, quer da justiça; ou que corrompa a futura tranquilidade das nossas mentes, quer por vergonha da memoria da nossa loucura, quer pelo remorso da nossa injustiça.”

15 setembro, 2006

Alarme

Esta não estava eu à espera, confesso.
E não é que de repente se começa a desenhar um debate Criacionismo/Evolução em Portugal? Ainda por cima num blogue que é dos mais lidos, ao que parece. E em jornais de grande circulação? Está tudo parvo?

Às armas!

14 setembro, 2006

E pensava eu que era optimista.

Depois de ouvir uma palestra do físico David Deutsch decidi rasgar o meu cartão de optimista militante. Sou um mero amador.

Antes de mais um pouco de contexto. Falava-se da capacidade rara que se desenvolveu neste cantinho do universo de conhecer a existência. A Terra, connosco nela, apresenta condições raras de concentração de quase tudo o que há no universo.

Não estamos num lugar típico do universo. Como Deutsch sublinha, um lugar tipico no Universo, é quase completamente desprovido de luz, 3 graus acima do zero absoluto, e com um vácuo 1 milhão de vezes maior do que conseguimos criar na Terra com toda a tecnologia actual. Se a estrela mais próxima desse lugar se tranformasse em Supernova, não a conseguiríamos ver, de tão longe que estaria.

No entanto, para ele, o que distingue mais fundamentalmente a Terra de um lugar típico do universo é o conhecimento. Se nós fossemos áquele sítio com o conhecimento suficiente, poderiamos usar o hidrogénio residual para criar outros elementos e construir por exemplo, uma base intergaláctica. Os recursos são muitos, até lá num vácuo quase absoluto.

Quando ele aplica esta forma de pensar a problemas concretos como, por exemplo, ao aquecimento global, salienta que há coisas que não podemos prevenir, e portanto são problemas para resolver. É, diz ele, legítimo pensar em reduzir a emissão de CO2, mas o esforço deveria estar em pensar em, por exemplo aumentar a absorção de CO2 pelos microorganismos, ou em criar um escudo reflector da luz solar em volta da Terra.

Ele avança com este lema:
"Problems are soluble. Problems are inevitable."

Teoricamente, sim.
Na prática, estaremos lixados se ficarmos à espera.

Ele nessa mesma palestra refere que bastaria uma estrela a alguns anos luz de nós transformar-se em Supernova para fritarmos todos. Gostaria de saber como resolveria ele esse problema...

12 setembro, 2006

É preciso acreditar?

Como anunciado no post anterior tive como leitura de férias o livro “breaking the spell” de Daniel Dennett.

A tese do livro é simples. Propõe que se olhe para o fenómeno religioso como se olha para qualquer outro. Sem medo de perguntar, porque para muitos perguntar já é ofender, duvidar já é o demónio a agir.

Independentemente das conclusões do livro, que ainda não li porque ainda vou a meio, uma coisa me parece desde já clara: a memética tem pernas para andar.

E o que é a memética? É a genética das ideias, tal como foi proposto por Richard Dawkins no seu seminal “O Gene Egoísta”.
Uma ideia tem a capacidade de criar cópias de si mesma, ao ser transmitida de cérebro para cérebro, de livro para livro, de geração para geração. Compete com outras ideias por nichos de conhecimento, dando resposta, determinando comportamentos, proporcionando estímulos etc. Da mesma forma que olhamos para a evolução biológica, podemos olhar para a evolução da cultura. Trata-se de transmissão de informação, essencialmente.

No caso da religião a comparação é melhor feita com os animais domésticos. Há uma origem selvagem, biológica se quisermos, evolução natural, que depois é substituída por uma “domesticação” selecção artificial. Elementos psico-sociais primevos foram sendo apurados, misturados, mutados, e depois seleccionados e apurados até chegarmos às instituições que conhecemos hoje, ou às milhares de seitas que não conhecemos mas que sabemos que estão por aí.

Ninguém que saiba um pouco de geologia e que perceba que a Terra tem mais de 6000 anos, acredita que a ideia de Deus tal como a entendemos hoje surgiu assim, algures no passado, e inalterável se manteve através dos tempos.
As diversas religiões foram competindo, adaptando, foram-se extinguindo, até chegarmos ao que temos hoje que é diferente do que termos daqui a umas centenas de anos.

Um argumento que surge com frequência, e que eu próprio partilhei, é o de que mesmo que não acreditemos, a religião é benévola para a maior parte das pessoas. Dá-lhes sentido, valores, esperança, coisas que não teriam sem uma ideia de Divino.
As suas vidas seriam vazias e desesperadas.

Reconheço hoje que é uma visão paternalista, de sobranceria intelectual. "Eles que são fracos, que não conseguem entender o mundo de outra maneira precisam de religião".
Não precisam. Precisam sim, e apenas, de perceber como funcionam as religiões, da mesma maneira que precisam de saber como funcionam os outros fenómenos naturais que os rodeiam. E precisam de perceber que viver uma vida boa e moral depende apenas de nós.