05 julho, 2006

Pay me my money down

Para quem não tenha visto recentemente o programa do Conan O'Brien fica aqui um dos melhores momentos televisivos dos últimos tempos. Por coincidência, ou talvez não, com um suspeito do costume.

Para breve neste blog: A explicação matemática da imortalidade da alma. A não perder.

03 julho, 2006

Novo realismo

Recentemente tive o prazer de ver uma produção documental de Martin Scorcese intitulada "A minha viagem a Itália". Nela o realizador leva-nos pela mão a revisitar os filmes que o influenciaram enquanto jovem italo-americano e cineasta. Reecontramos De Sica, Antonioni, Rosselini, Fellini, Visconti, visitados pelo olhar sabedor e apaixonado de Scorcese.
Mas de todo aquele amor cinéfilo, houve uma frase que me ficou, com uma ideia que transcende a sétima arte ou qualquer uma das outras.
Falando das vidas retratadas naqueles filmes, muitas delas da sua Sicília ancestral, Scorcese notava que "Hoje as pessoas vivem em sociedade, unidas pela Lei, e esqueceram-se do que é viver em comunidade, unidas pelo Amor".

25 junho, 2006

E se a infelicidade pagasse imposto?

Há uma ideia, quanto a mim uma boa ideia, que tem despertado algum interesse em certos ciclos, especialmente aqueles que procuram encontrar uma alternativa à teoria económica dominante. Uma missão para a qual não estou qualificado, mas isso não me impede de fazer eco de quem está.
Um dos principais problemas da economia neo-clássica é assentar numa noção errada e cada vez mais ultrapassada da natureza humana. Nomeadamente que as pessoas são mais felizes quando têm mais coisas.

Alguns autores, que sabem que a história tem algo para ensinar, interrogaram-se sobre porque é que vivendo o Ocidente uma vida muito mais rica materialmente, não é nem um pouco mais feliz do que dantes.
Primeiro que tudo há que perceber o que é a felicidade. Não falamos aqui de algo idealizado e intangível, essa noção de felicidade tem feito provavelmente mais gente infeliz do que é bom admitir. Falamos de coisas relativamente simples e práticas. Todos temos uma noção de quão satisfeitos, realizados, tranquilos, entusiasmados, estamos com as nossas vidas. Se se perguntar a uma pessoa se é feliz, é muito provável que a resposta seja válida: sim, não, nem por isso, falta qualquer coisa, gosto da minha familia mas do meu trabalho nem por isso, etc, etc..

Isto pode parecer óbvio, mas durante uma boa parte do século 20, a psicologia behaviorista dominante negou-o, afirmando que é impossivel saber o que as pessoas pensam, apenas se pode observar o que fazem. Assim, por exemplo, quando uma pessoa entra numa espiral de consumo, a psicologia behaviorista conclui que essa pessoa consome porque isso lhe dá prazer, e como tal contribui para a sua felicidade. A psicologia moderna há uns anos que colocou isso em causa. Nomeadamente porque a teoria não era confirmada pelos factos (coisa que a teoria económica frequentemente ignora).

Assim, a felicidade hoje é medida quer num nivel geral, quer num nivel particular. A imagiologia cerebral permite identificar os acontecimentos que despertam o prazer ou o medo, a tranquilidade ou a angustia etc etc.
Fruto destes estudos sabe-se que as pessoas, por um lado, não são muito boas a prever o que lhes vai trazer felicidade. Por outro lado, sabe-se que as pessoas se habituam ao seu estado, e aquilo que parecia ser uma fonte de felicidade deixa de o ser passado uns tempos, e o mesmo se passa com algumas fontes de infelicidade.

Quando falamos de bens materias isto é especialmente óbvio. A felicidade das pessoas só aumenta com os bens materiais até um certo nível, um pouco acima da subsistência. Acima disso, incrementos de riqueza podem causar picos de felicidade, mas depois a pessoa reverte para um estado “normal”. Este estado é ditado sobretudo pela comparação com as pessoas à sua volta.

Por isso uma das coisas que importa identificar é que coisas causam felicidade, e nunca são demais. E entre essas estão coisas como boas e sólidas relações sociais, amigos, família, sexo, um trabalho compensador, que dá significado ao que fazemos, e outras assim.

A resposta é simples e parece senso-comum, mas a verdade é que a vida a que cada vez mais gente é obrigada, no esforço pela competitividade e na busca de uma ideia de felicidade vendida por quem não sabia do que falava, nos afasta cada vez mais das verdadeiras fontes de bem estar.

A desintegração das famílias, a trivialização das relações, a mobilidade imposta a trabalhadores e famílias, a angustia de ficar para trás numa corrida sem sentido, são-nos impostas como modernidade, flexibilidade, liberdade individual, sucesso. Por vezes o discurso parece até assustadoramente moralista. Mas se olharmos para o que se exige, é simplesmente mais tempo e estabilidade para nos relacionarmos uns com os outros de formas emocionalmente construtivas.

A ideia nova de que falei ao princípio, é a de integrar a felicidade numa nova teoria económica. A teoria vigente tem um nome para os custos que ficam fora do sistema: Externalidades. São externalidades, por exemplo, os custos ambientais de uma industria. Durante décadas foi permitido poluir à vontade fazendo com que todos pagassem esse custo, em benefício de alguns que lucravam com isso. Esse estado de coisas conduziu directamente à actual ameaça do aquecimento global, por exemplo.

Assim, a infelicidade devia ser considerada como uma externalidade e, reconhecida como tal numa politica de justiça, sujeita a impostos e multas.

Não julguem a ideia pelo simplismo da minha esplanação. O autor de onde trago uma boa parte destas ideias é um dos mais eminentes economistas britânicos da actualidade, e o seu livro Happiness é apenas uma primeira tentativa, talvez ainda imperfeita, de tentar perceber como um Estado se pode organizar para fazer aquilo que é afinal a sua razão de existir: promover a felicidade dos seus cidadãos.

Os opositores chamam paternalista a este tipo de propósitos. E insistem que a felicidade está ligada a coisas como "liberdade económica". O pior cego é mesmo o que não quer ver. Mas o assunto, como de costume não fica por aqui.

16 junho, 2006

Já tardava.

Antes que o designorado passe a desquecido vou aqui dar conta dos temas à volta dos quais tenho andado a matutar e sobre o quais espero vir a elaborar mais nos próximos posts.

Ando a ler um livro intitulado “Happiness” de um economista chamado Richard Layard. Nesse livro ele defende algumas ideias interessantes que o pensamento económico corrente tem ignorado. Nomeadamente questiona, com vasta fundamentação, a ideia central de que quanto mais riqueza temos mais felizes somos.
Parece a espaços um conjunto de ideias banais, de senso comum ou sabedoria popular, mas a verdade é que, na medida em que a ciência consegue medir a felicidade, demonstra-se que esse senso comum estava certo.
A tese do livro é que, sabendo o que faz de facto as pessoas felizes, é desejável desenhar outro tipo de politicas económicas, nomeadamente umas que distribuam a riqueza de forma a minorar um dos grandes focos de infelicidade, que é a desigualdade. Falo de desigualdade económica, como a que é fácil de encontrar em Portugal e mais difícil, por exemplo, nos países nórdicos.
Mais sobre isto num futuro post.

Sobre energia, dei-me conta de um facto curioso. Face à eminência do “peak oil” — o termo usado para designar o ponto máximo de produção de petróleo antes do declínio inevitável por esgotamento das reservas— cada vez se ouve falar mais de energia nuclear.
Mas o que pelos vistos pouca gente sabe, é que o “Peak Uranium” foi atingido há cerca de 20 anos. Uma larga percentagem da energia nuclear actual é produzida a partir de ogivas nucleares desactivadas pelos pactos de desarmamento. As centenas actuais de centrais nucleares de todo o mundo já têm um limite no horizonte para as suas funções. As milhares que seria preciso construir para substituir por completo o que tiramos do petróleo seriam elefantes brancos instantâneos.


Para terminar, há uma coisa que me faz confusão. A insistência em modelos centralizados de produção de energia, como aquela mega central solar de Serpa. É sempre louvável um investimento sério em energias renováveis, mas fica-me sempre a impressão de que o negocio da energia é sistematicamente mantido na área dos grandes projectos centralizados para assegurar que continua a ser um negocio atractivo para os grandes investidores.
Alguma centralidade tem que existir para assegurar a manutenção de reservas nacionais, mas penso que seria muito mais séria uma politica de disseminação da produção de energia, recorrendo a diversas fontes. Se por exemplo todos os telhados do pais tivessem 60m2 de painéis fotovoltaicos, estariam garantidas todas as necessidades de electricidade do pais. É um extremo desnecessário, e provavelmente com alguns contras mas dá uma ideia do que era possível fazer com outro enquadramento.
Para não falar do que seria possível fazer com melhores regras de construção... Na Alemanha, foi criado um standard chamado Passivhaus que certifica casas energeticamente eficientes. As casas construídas por estes standards não têm sistemas activos de aquecimento ou arrefecimento, e mantêm uma temperatura média de 21,4° C. Um cuidados isolamento e dimensionamento da exposição solar, permite que as fontes de calor naturais como o corpo das pessoas e o sol, em conjunto com o resultante de cozinhar ou aquecer água para banhos, seja suficiente para manter uma casa confortável, até no inverno da Alemanha.
Por cá, seria preciso transformar aquilo que é um cancro numa cura. Pouco menos que um milagre para mudar as cabeças de presidentes de câmara e os empreiteiros que os alimentam.

07 junho, 2006

Interlúdio Musical

Post concebido exclusivamente para ganhar tempo e proporcionar um bom momento a apreciadores de John Lee Hooker e Van Morrisson.

Ou ainda para os apreciadores de R.E.M. e um amigo deles.

27 maio, 2006

A alma portuguesa, o tanas

Imagine um país onde os condutores conduzem pela esquerda mesmo com a faixa da direita livre.
Onde se usa de esquemas e cara de pau para, por exemplo, entrar onde não é suposto para satisfazer uma curiosidade qualquer.
Ou onde há leis de padrões de construção há mais de 20 anos que nunca foram devidamente aplicadas e fiscalizadas.
Ou ainda um país onde subsídios churudos para a agricultura, vão para grandes agro indústrias e latifundiários, e os pequenos produtores ficam a ver navios.
E onde face a estas atitudes, se abana a cabeça e diz: só mesmo aqui…

Se até aqui parece que este é um post a falar de como somos péssimos, é de propósito. Mas os exemplos que referi acima vêm de além fronteiras, Alemanha, Inglaterra, e no caso dos subsídios agricolas, toda a Europa.

Confesso que fico dividido perante esta espécie de lenta revelação que tive nas ultimas semanas. Por coincidência, um conjunto de pequenos episódios, anedotas, e noticias levavam sempre à mesma conclusão: Não somos assim tão excepcionais como isso.

Seja em pequenas incivilidades seja em grandes vícios instituidos, lá fora, na Europa que nos habituámos a ver como civilizada, consciente, organizada, multiplicam-se os maus exemplos. Bem, talvez os Suíços sejam mesmo diferentes. Mas esses estão à parte.

E fico dividido porque não sei se hei-de desesperar, pois se até os bons exemplos não o são, afinal, ou se devo ter esperança, porque se somos capazes de ser iguais no pior, também seremos capazes de imitar o melhor.
Mas talvez seja um bom antídoto para aquela resposta que bem conhecemos, quando alguém sugere que adaptemos este costume ou aquele processo: “Pois pois… isso cá nunca pegava…”

Se há algum excepcionalismo português é que muito cedo fomos obrigados a viver de costas voltadas para os nossos vizinhos europeus. Fomos alimentando esta ilusão de que éramos únicos, porque tudo o que conhecíamos era a nossa imagem, reflectida no Atlântico. E fomos ficando resignados no nosso isolamento, incapazes de criar nesta terra aquilo que fomos fazer em outras. Futuros.

Ao contrário de muitos vejo esperança nos imigrantes que entre nós se fixam. Trazem outros olhares, outros espelhos, com a imagem da nossa própria humanidade que nos foi negada pela história.

22 maio, 2006

Sinais dos tempos todos

Como alguns dos (poucos…) leitores deste blog talvez se apercebam, não costumo primar pela frequência das actualizações. Por um lado porque tento tanto quanto possível dar alguma substância aos temas que abordo, e há limites para a substância que cabe nesta pobre cabeça. Por outro, tento não ser demasiado repetitivo. O que também não é fácil.

O nosso tempo é atravessado por alguns grandes temas, mas poucos. Tudo o resto são derivações do mesmo. Clima, energia, economia, radica tudo no mesmo, uma ideia de progresso e sustentabilidade, a tentativa de continuar a andar para a frente deixando o menos possível da humanidade para trás.

Mas mesmo esta ideia, que parece nobre, pode ser interpretada de forma perversa e destrutiva. Há muitas comunidades humanas nativas que preferiam ser deixadas aos seus hábitos e costumes. Vale mais ser um rei, ou um guerreiro, na idade da pedra do que um sem-abrigo no século XXI.

Recentemente, uma baronesa com assento na Câmara dos Lordes, inglesa, acusou duas tribos bosquimanes do Kalahari, no Botswana, de quererem continuar na idade da pedra. Inadmissível!

Passou-lhe ao lado que as populações já realojadas em campos, vivem desenraízadas do seu modo de vida, sem mais do que esperar a chegada do alcoolismo, da SIDA, e outras “conveniências” da vida moderna reservadas para quem está destinado a não ser privilegiado em África.

E não lhe causou repugnância que este desalojamento forçado fosse provocado pelo conluio entre o governo do Botswana e a De Beers, de nome, Debswana, detentora dos direitos de exploração de diamantes no território dos Bosquímanes, que de resto lhe pagou a viagem em que ela tirou tão eloquentes conclusões.

O nosso tempo é de paradoxos. Enquanto uns tentam resolver os problemas de sustentar vida Humana em Marte, os que verdadeiramente sabem como se sustenta a vida Humana na terra vão sendo eliminados, em nome do progresso.

Não sou um romântico adepto do regresso a uma vida de caçador recolector, isso não é para mim, e não pode ser para todos. Mas não nos fazia mal aprender com os que vivem em harmonia com os ambientes mais inóspitos da terra, em vez de os extinguir. Um dia podemos ser forçados a imitá-los.