Volta e meia, somos presenteados no jornal da noite, ou numa primeira página qualquer, com mais uma infâmia que nos leva, dependendo normalmente do grau e proximidade, a exercer o nosso direito de indignação. Normalmente não passa do colega do lado, numa conversa do género "Já viste o que aconteceu ali? É incrível! Em pleno século vinte! Vinte e um, aliás!" e por aí fica.
Infelizmente muitas mais há que não são apanhadas com a mesma frequência e atiradas para as prioridades das preocupações do mundo. Neste momento poucas devem ser mais trágicas do que o que se passa na Republica Democrática do Congo.
O Congo, ex-Belga, ex-Zaire, é neste momento um país que mal existe, depois de conhecer uma guerra pavorosa entre 1998 e 2003-o fim oficial do conflito. O território continua politicamente fraco, dividido ente milicias locais e milicias de países vizinhos, com os habituais traços tribais desta parte do mundo. O facto de a dita guerra ter sido o conflicto que mais mortes causou desde a Segunda Guerra Mundial, parece não ser o suficiente para mobilizar vontades internacionais. Afinal tudo se passa no coração mais negro de África, onde tudo é ainda tão selvagem, "eles que se entendam". Não é nada connosco. Era bom se fosse tudo assim tão fácil para as nossas consciências.
No meio dos conflitos tribais há um tema que sobressai. A luta pode ser ancestral, mas o que a sustenta actualmente, é bem deste século. O Congo contem 80% das reservas mundiais de Coltan. Um mineral que contém Nióbio e Tantalo, este metal é usado na construção de condensadores, um componente fundamental dos telefones celulares e computadores portáteis.
Este mineral é recolhido por mão de obra escrava ou semi escrava sob o controlo das milicia locais e, de uma forma geral, encaminhado (contrabandeado) para um dos países vizinhos, Rwanda, Uganda e Borundi, e daí exportado para as indústrias high-tech do Hemisfério Norte.
Uma das características do conflicto é a extrema violência sexual exercida sobre as mulheres.
No hospital de Bukavu as vitimas chegam frequentemente, quando vivas, violadas por bandos e depois baleadas. Tão jovens como 3 anos de idade, tão idosas como 78. Mais do que a violência caracteristica dos vencedores sobre os vencidos em cenários de guerra, estes actos são usados como táctica de desmoralização das populações. Com assinalável sucesso.
Estima-se, e pouco mais se pode fazer do que isso, que centenas de milhares de mulheres sejam anualmente vitimas desta guerra que oficialmente terminou.
Oficialmente, também, a indústria evita a compra das matérias primas de origem duvidosa. Alguns fabricantes terão boicotado completamente a compra de Coltan Africano, adquirindo-o noutras partes do mundo como a Austrália.
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o artigo que recentemente me voltou a lembrar deste conflito é penoso. É dificil não ficar com um nó na garganta, e com os punhos cerrados de revolta e impotência. Nas palavras de uma mulher que trabalha todos os dias numa mina para alimentar a sua familia são "as pessoas mais infelizes do mundo".