27 fevereiro, 2006
23 fevereiro, 2006
Público vs Privado
A actual doutrina económica dominante dita que privado é que é bom. Deixemos os mercados funcionar, deitemos abaixo fronteiras e leis constritoras. O privado é dinâmico ágil, moderno e ambicioso. O público é lento, retrógrado, burocrático e desmotivado. A cobiça e o lucro são os grandes motores do progresso. A "solidariedade" e a "distribuição de riqueza" incentivam a preguiça e o parasitismo. O mercado cria, e os governos apenas devem ter como missão deixá-lo seguir o seu curso "natural".
Estas ideias não são novas. Foram postas em prática de forma dramática na Inglaterra da revolução industrial. Na altura, cerca de 1820, emergia uma classe política anglicana evangélica que acreditava que a pobreza era uma provação divina destinada à expiação dos pecados. Contrariar de forma directa esta pobreza, era perverter o plano divino, que pelo sacrifício e sofrimento no quotidiano levaria à salvação das almas. Ajudar um pobre é condená-lo ao inferno. No polo oposto, os heróis da indústria incarnavam a virtude e o triunfo da justa vontade.
Esta doutrina foi levada a extremos em pelo menos dois casos que nos deviam fazer reflectir sobre os critérios para definir "Holocausto".
Um deles foi a conhecida Grande Fome da Irlanda.
Dela sabíamos que causou 1 milhão de mortos e outros tantos emigrantes. Que a dependência de uma única fonte de alimento se revelou desastrosa quando a praga atacou. Em dois ou três meses deixou de haver batata, a base e sustento de toda a população rural. O governo inglês inicialmente tomou medidas para minorar o desastre, importando milho das américas. Mas uma mudança de responsável para um ferveroso crente na não interferência, que atribuía o desastre ao laxismo dos irlandeses, interditou o processo. Na sua perspectiva, era uma oportunidade de modernizar a Irlanda: se a fome forçasee os pobres a migrar para as cidades, provocaria uma subida da oferta de mão de obra barata o que possibilitaria uma explosão industrial na Irlanda. Assim, os irlandeses poderiam fazer a sua expiação e encontrar a redenção. O resultado foram os acima citados números de mortos e emigrados, e a população reduzida a 3/4.
Outro foi menos conhecido, talvez porque aconteceu num lugar mais distante.
Cerca de 1876, uma seca afectou uma parte da Índia. A então colónia britânica possuía um excedente de arroz e trigo, mas o vice-rei Lord Lytton decidiu que nada devia impedir a sua exportação para Inglaterra. Sob feroz imposição administrativa, foram passadas leis para impedir actos de caridade. O único acto autorizado era o trabalho agrícola forçado, em condições tão deploráveis que a mortalidade atingiu o equivalente a 94% anuais, por mês. De acordo com algumas referências, a dieta de um trabalhador agrícola indiano neste periodo era pior que a dos prisioneiros de Buchenwald.
Além disso, mesmo regiões que tinha tido colheitas excepcionais nos anos anteriores foram sujeitas à mesma centralização e exportação dos recursos. Entre outros empreendimentos estava em causa o financiamento de uma guerra no Afeganistão.
Entre 1876 e 79 morreram entre 12 e 29 milhões de camponeses indianos.
Podemos pensar que uma coisa destas seria impossível nos nossos dias. Sim, talvez. Mas a mesma crença cega de que o mercado tudo resolve, que os governos não devem ajudar e proteger os seus cidadãos mais vulneráveis, que a saúde, a água, a educação, por exemplo, podem ser entregues às leis do mercado, está mais viva do que nunca.
Aqui há uns anos lembro-me de ver um debate sobre economia. Lá estava um senhor de barbas que de vez em quando aparece junto de políticos. Presumo que seja um economista. Dizia ele em defesa dos mercados livres, falando das crises e das injustiças sociais:
"Isto são as dores do crescimento... a civilização ainda é jovem, na história da humanidade. Se deixarmos as coisas seguirem o seu curso natural, daqui a uns 500 anos estará tudo bem."
Ainda hoje me espanto.
Referências para este texto sairam daqui e daqui.
20 fevereiro, 2006
Quem sabe faz a hora... passar.
O que me pareceu inacreditável porque nos assenta tão bem: "procrastination".
Muito depois vim a consultar alguns dicionários onde já aparecia "procrastinação", "procrastinar" etc... Enfim, mesmo que existisse não era, nem é, muito usada.
Para quem não saiba, procrastinar significa adiar. Deixar para amanhã o que podíamos fazer hoje. A mais portuguesa das acções. O acto de não fazer nada e esperar que o tempo nos obrigue a fazer, ou que afinal faça com que já não seja preciso. Nisso, sou indubitavelmente, o maior dos patriotas. De vez em quando com vergonha e remorso.
Mas é como diz Steven Wright, os que trabalham são recompensados no futuro, os que preguiçam, são recompensados de imediato.
17 fevereiro, 2006
Velho provérbio Hebreu
Se fores apenas por ti, o que és tu?"
(ainda retirado da mesma fonte que o excerto anterior)
Por vezes acho que a Humanidade já sabe tudo o que precisa de saber. O problema é fazer 5 biliões recapitularem a matéria dada nos últimos 100 000 anos.
15 fevereiro, 2006
Não é preciso ser um génio
"Private capital tends to become concentrated in few hands, partly because of competition among the capitalists, and partly because technological development and the increasing division of labor encourage the formation of larger units of production at the expense of the smaller ones. The result of these developments is an oligarchy of private capital the enormous power of which cannot be effectively checked even by a democratically organized political society. This is true since the members of legislative bodies are selected by political parties, largely financed or otherwise influenced by private capitalists who, for all practical purposes, separate the electorate from the legislature. The consequence is that the representatives of the people do not in fact sufficiently protect the interests of the underprivileged sections of the population. Moreover, under existing conditions, private capitalists inevitably control, directly or indirectly, the main sources of information (press, radio, education). It is thus extremely difficult, and indeed in most cases quite impossible, for the individual citizen to come to objective conclusions and to make intelligent use of his political rights."
E no entanto...
(para os interessados que não tenham notado, clicando no nome e data, poderão ler o artigo de onde retirei este pedaço)
14 fevereiro, 2006
Exorbitantes metades
Tenho uma teoria:
Baseia-se em alguns factos psicológicos e sociológicos.
Facto psicológico: as mulheres escolhem o parceiro (depois da inteligência e bondade) por critérios de status, riqueza, estabilidade ou, se os parceiros forem demasiado jovens para os ter, pelo seu potencial para os adquirir.
(antes que as senhoras se revoltem, não estou a inventar nem a recorrer a clichés, refiro-me a um estudo feito pelo psicólogo David Buss em 37 sociedades diferentes um pouco por todo o mundo, pode ser consultado aqui)
Facto sociológico: há muito mais mulheres a ter a sua própria capacidade financeira, status, riqueza e estabilidade.
Facto Psicológico: Mulheres que têm essas qualidades continuam a procurá-las (na verdade ainda as valorizam mais) nos homens. A tendência é sempre para olhar para cima na escala social.
Facto sociológico (e económico e político): As sociedades modernas, nomeadamente a "ocidental" e Portugal talvez mais que o resto da Europa, estão cada vez mais polarizadas entre ricos e pobres, ou seja a faixa dos homens que se apresentam como elegíveis é progressivamente mais pequena, com o estreitamento das classes médias.
Já estão a ver onde estou a chegar... a culpa das mulheres não encontrarem homens que achem atraentes é do neo-liberalismo. De todos os males que aquilo traz ao mundo, acreditem que este não será o mais trivial.
Por outro lado, poucas coisas são tão passíveis de causar uma revolução como a defesa de um lugar na herança genética da espécie. As sementes da mudança podem estar nos testículos e ovários dos destituidos.